O aborto, o mico-dourado e os políticos

30/11/2016

 

 

Ontem se votava no Congresso o pacote anti-corrupção. Os deputados fingiam que discutiam as dez medidas, porque eles já estavam com tudo acertado, claro. Mas eles ganham para subir a tribuna e falar, falar... como se alguém ouvisse, naquela bagunça que é o Congresso. De repente, um deputado chamado Flavinho, do PSB-SP, pede a palavra e faz um aclamado discurso contra a decisão do STF, que descriminalizava o aborto, se feito até os 3 meses de gestação. “Eu já não sei mais o que ainda pode acontecer nesse país. É uma imoralidade total”, diz o “casto e puro” Flavinho.

Eu me assusto. Primeiro: o tema não era a corrupção? Como pode um cara tomar a palavra e falar de aborto? É muita cara de pau. Depois, quem é esse cara para falar que não sabe mais o que pode acontecer nesse país, porque as mulheres poderão fazer aborto... Sim, senhor, imoralidade não é isso. Nós é que não sabemos o que pode mais acontecer nesse país com um Congresso sonso e imoral como aquele do qual o senhor faz parte. Falar de moralidade? Pera lá. 

Logo depois, a farsa continua. Outro cara de pau, o deputado Marcos Rogério, sei lá de onde, gasta seu tempo de “discussão” para criticar a decisão do STF. Diz ele: “Nós é que defendemos a vida. Isso é mérito dessa casa, e não do STF” – anotei na minha agenda. 

Senhor Marcos Rogério, só o senhor e seus pares acreditam que vocês defendem a vida. E só os senhores acreditam também que têm mérito para legislar sobre uma questão tão pessoal... (por mais que legalmente possam ter)... Nós, nós todos que não estamos aí, nesse Congresso zoneado e inescrupuloso, temos certeza de que vocês, salvo raríssimas exceções, não têm mérito e não “defendem a vida”, mas apenas os privilégios a que se se outorgam: poder, dinheiro e ficha limpa, mesmo quando ela é sujíssima.

Fico, então, muito irritada: dois deputados homens usam a tribuna com o assunto errado, na hora errada, para se posicionarem contra um assunto que não lhes diz respeito? Que moral têm esses homens para falar do que é imoral? O que esses homens sabem sobre os desejos e os problemas das mulheres? Em nome de quem eles acham que têm o mérito de decisão, e não o STF? Em nome de quem eles acham que podem decidir por nós, mulheres? 

Mas isso foi pouco. Acabo de chegar em casa, são 18h. Ligo a TV, ainda na TV Câmara, abandonada de madrugada. Fico sabendo que Rodrigo Maia criou uma comissão especial para discutir o aborto. Agora? No meio dessa crise? “Sempre que o Supremo legislar, nós vamos deliberar sobre o assunto”, disse Maia, o garoto que parece bobinho, mas de bobo não tem nada. “A comissão instalada pode tornar mais rígida a legislação sobre interrupção de gravidez”, informa a notícia. 

Mais rígida? Como assim? As mulheres só poderão fazer aborto se os deputados congressistas, esses que são corruptos, que são imorais, que têm mil amantes, que devem pagar muitos abortos, permitirem? São esses os homens defensores “da vida”? São esses os homens que vão decidir sobre o feto que está na barriga de uma mulher? Esses canalhas?

And last, but not least, escuto o abominável deputado Marco Feliciano, PSC/ SP, clamar para que IBAMA, Programa do Mico Dourado, Projeto Tamar, entre outros “coloquem o homo sapiens na sua lista de animais de extinção”. Juro, meninas, eu vi. E ouvi. “Se o país protege um mico dourado, por que não protege uma criança?” E aí o ilustre deputado diz “tudo farei para mudar esse cenário dantesco”.

Minha gente, nós é que temos de tudo fazer para mudar esse cenário dantesco.

Desligo a televisão, o coração bate forte, sinto raiva, escrevo este texto. Há de ter sangue de barata para assistir a esses caras. Micos, macacos, cobras – são eles. E infelizmente não estão em extinção. 

 

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