Somos menos que nada

Soa estranho, mas o céu e os horizontes nublados pela lambança de nossos “representantes” não nos deixam escolhas: é preciso falar sobre essa tal de representatividade, sobre o sistema político que desfiguraram em nosso nome.

Somos menos que nada.

Balimos, como cordeiros, ou gritamos, como bugios. Mas não somos mais do que isso: quadrúpedes esquálidos, tosquiados à exaustão, ou macacos barulhentos, pulando no topo das árvores para fugir de onças, jacarés e sucuris.

Somos massa de manobra para delinquentes organizados em gangues, sob o manto de partidos políticos. O que há de espírito público nessas pessoas, para além daquilo que amealham como riqueza, sempre em nosso nome?

Quantos ali permaneceriam em condições menos favoráveis, sem os estipêndios e mordomias que retiram de nosso trabalho, como vampiros? Sem as contribuições, espontâneas ou não?

O sistema é podre do topo ao porão. Desde as câmaras municipais, o jardim de infância dessa delinquência, até o Senado, onde se sentam os mandarins, os “vice-reis da república”.

Eles aprenderam que o tempo a tudo dá jeito. Sabem que quanto mais se debatem, mais as presas se enredam. O destino da ovelha é agasalhar seu dono; o da presa é alimentar o mais forte.

Antes que me confundam, a democracia é perfeita. Ruim são os contornos que lhe conferem as Leis feitas com propósitos escusos. Imunidade Parlamentar deveria ser exclusivamente para os crimes de opinião, por exemplo. Vantagens lícitas, porém indecentes, para prefeitos e vereadores de cidades miseráveis, não deveria ser passível de cogitação…

A Democracia à brasileira é perversa. Oportunista. De ocasião. Nasceu de coronéis (aqueles mandatários da coroa, sem escrúpulos, não os militares), e vem sendo remendada pela escória da sociedade: a cada legislatura nosso parlamento se degrada um pouco mais.

Enquanto não adotarmos o parlamentarismo, o voto distrital, e remodelarmos todo o sistema político, só o constrangimento do repúdio total da sociedade será capaz de promover algum tipo de comprometimento desses “representantes” com os legítimos interesses de seus “representados”.

Na impossibilidade de dissolver esse congresso e convocar eleições gerais, nos resta a desobediência civil. Parar de alimentar o Estado que sangram. Desconectar o canudinho de onde estão roubando o meu, o seu plasma.

Ou, como dizia Millor, “Restaure-se a legalidade, ou locupletemo-nos todos”