O Réquiem de Renan (libreto)

Mozart foi tão perfeito ao trabalhar no réquiem que lhe fora encomendado que morreu pouco depois de compor três magníficas partes da peça, que viria a ser acabada por um discípulo. 

O pupilo, obviamente, não conseguiu reproduzir nas demais sequências melódicas para coro e orquestra o brilho do gênio, que nos deixou a introdução, o Kyrie e Dies Irae, a ira de Deus. 

Fidedignas fontes dos céus, perdão pela redundância, afirmam que o iluminado austríaco provocou essa ira no Todo Poderoso após escrever o último compasso da irada partitura múltipla. O mestre mostrou que compunha tão divinamente que foi convocado precocemente à suprema sede da instituição religiosa para os devidos esclarecimentos ao Criador. 

Já pelo tenebroso lado das trevas, Renan, reconhecendo-se no limiar do repouso eterno em Curitiba, e próximo da inexorável perda de poder que há de vir ainda antes das cinzas, em fevereiro, encomendou um grande e ousado réquiem a um de seus comandados. A exemplo dos libretos de origem bíblica, o improvisado mecenas focou na luz perpétua, a ser instalada no fim do túnel escavado pela leniente Odebrecht, e contra a Justiça terrena. 

Tudo porque o Sansão do implante capilar, cuja Dalila fora ajudada indiretamente pela concorrência nas obras faraônicas, deseja descansar em paz no paraíso corporativo do Senado, este um bendito fruto do pastoreio de ingênuas almas alagoanas. Com foro privilegiado, Renan só aceita o Supremo ou o Juízo Final, que promete ser bem mais ágil.

Apesar de afirmar que a purificação por obra da Lava-jato é sagrada, o fariseu serviu-se de quem profanara o templo do povo na calada da noite, desprezando a Vox populi e outros institutos de pesquisa. Açodado, foi vítima de traição de alguns pares e de muitas figuras ímpares, que lhe fizeram perder o chão da necessária urgência, levando-o de volta às profundezas. 

Sem um Jacó a quem recorrer, apelou para Jucá, que recusou o fardo por estar carregando pacote maior, a despeito de econômico. O sucessor de Jucá não se fez de rogado. Dirigindo-se aos povos que saíram em massa para pregar contra o poder do Alheio, condenou os “mentecaptos manipuláveis”. Mostrando desconhecer as pragas do Egito, a começar pelos gafanhotos até chegar ao mosquito aedes, foi peremptório: - “eu recomendo alfafa, muita alfafa. In natura ou como chá. É própria para muares e equinos, acalma e é indicada para passeatas nonsense”. 

Ao pegar pesado com os povos sofridos, que têm demonstrado paciência de Jó, o autor do libreto do Réquiem de Renan recusou o pseudônimo de Maria Louca. Assinou a obra com o nome artístico, sem dúvida um sonoro Requião.

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