Jóias na Black Tuesday

Ontem, 6/12, à tarde, um amigo brasileiro, morador de Nova York, procurou o meu auxílio para tentar decifrar o motivo da queda do dólar e da leve alta na bolsa. Atento observador dos mercados de ações e financeiro daqui, não compreendia a razão dos movimentos, ambos na contramão da crise institucional que se instalava entre os três poderes. A alta dos papéis da Petrobras, motivada pela comprovação do seu recente alinhamento ao mercado externo, por si só, não justificava o relativo otimismo traduzido em números. 

Sim, pois uma incontrolável maré vazante combinaria bem mais com a negativa de Renan em receber o persistente oficial de justiça. A cada hora, senão a cada minuto, o agravamento da crise criava mais e mais razões para uma debandada dos ativos pelos investidores nacionais e estrangeiros. Para tanto, concorreram a rebelde manifestação da mesa do Senado, a falta de perspectiva para a votação da última rodada da PEC do limite de gastos e um petista no comando da Casa Revisora. 

Como tudo isso não bastasse para configurar um Deus nos acuda na Bovespa e nas casas de câmbio, o péssimo clima reinante entre ministros do Supremo sofreria aguda, irreversível e substantiva deterioração. A animosidade explícita e a pauta necessariamente beligerante sem dúvida contribuíam para que a moeda americana ultrapassasse a barreira dos 4 reais por aqui, mas nada disso abalava o mercado, sustentado que era por uma estranha força que inundava de liquidez os mercados de dólares, ouro e prata. A tese universalmente aceita do refúgio em ouro ou moeda forte, que caracteriza a aversão ao risco, fora duramente atingida.

A situação mantinha-se incompreensível até que uma notícia proveniente da sétima vara federal, enfim, começou a explicar a origem do suposto paradoxo. A ex-primeira-dama do Rio de Janeiro tivera a sua prisão preventiva decretada. Sem milhões suficientes para pagar seus advogados, lançou mão de algumas centenas de joias de sua coleção para honrar os honorários de seus inúmeros colegas e respectivos táxis para Bangu. Uber no cartão, nem pensar! 

Trocaria braceletes cravejados de brilhantes extraídos das mais raras gemas por algemas, além de vasto numerário para a defesa e eventuais habeas corpus. Com tal operação, tanto as casas oficiais de penhores como os humildes pregos arrebentaram as bocas dos balões de ensaio lançados dos bastidores de Brasília. Bombaram como os artefatos de efeito moral lançados pelos policiais que protegiam a assembleia legislativa do Rio contra os colegas aposentados e de folga que os atacavam com fogos de artifício. 

Olhando o duplo encarceramento pelo lado positivo, os pombinhos engaiolados em Bangu estarão bem mais próximos um do outro, tomando o mesmo banho de sol e usufruindo do mesmo cardápio. Tudo a meio caminho de Mangaratiba. Quando saírem, poderão dispensar o helicóptero.

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