Vara, Varinha e Varão

Nesses tempos de crises, espera-se que a suprema vara da justiça, o último recurso da República, traga luz ao ordenamento e não treva à confusão do circo Brasília. O nobre varão Renan bota o Supremo de joelhos e não leva nem advertência, nem cartão, em nome do santo nome em vão da democracia. Presidentes, políticos, até o PT teriam entrado na operação salvamento da república, não se sabe a que preço.

São agora frágeis e incertas as sólidas instituições republicanas das quais nos gabávamos na nossa doce primavera democrática.

O edifício republicano começa a ruir quando o Executivo não tem convicção das propostas que apresenta, quando o Parlamento põe o interesse de grupos acima da votação das reformas necessárias e, quando, além do Estado nacional, vão à falência Estados gerais, como o Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais.

Estão os Estados todos à espera da salvação intervencionista ou de um milagre que multiplique o tesouro. E, daqui a pouco, serão os municípios a expor a grave situação.

Há impotência, desgaste, desgosto e falta de perspectiva.  A falsa esperteza já não engana. A ingenuidade vai dando lugar à intolerância. O país retrocede duas décadas em dois meses e ninguém sabe onde está a saída. 

Todas as instituições podem estar funcionando. Isto é democracia. Mas estão funcionando mal. E isso faz mal à democracia.

Há uma guerra subterrânea entre os poderes e é nesse espaço que parece serem negociados os acordos velados no interesse não se sabe de quem ou de quê. O Executivo não executa, o Legislativo não legisla, o Judiciário não julga. Intrigas. Embora Brasília não tenha esquinas, há brigas e futricas em cada esquina. Todas as instituições funcionando a todo vapor: vapor do salve-se quem puder!

O Judiciário, ele mesmo, já não esconde as disputas, as dissensos, as vaidades e os altos privilégios. É o Supremo contra o Supremo. Quando se pede vista, o prenúncio: a justiça não anda assim tão cega. Ao analisar a votação das 10 medidas contra a corrupção, o colunista Elio Gaspari tocou no ponto mais sensível da Justiça, hoje: os próprios juízes temem – em vez de respeitar e acolher – a justiça que praticam.

Ó tempos, ó costumes. O Senado, pilar da democracia federativa, espera Cícero ecoar a voz das ruas no discurso contra Catilina, passados 2 mil anos: até quando, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo, ainda, há de zombar de nós? A que extremos levará sua audácia? 

No circo Brasília, pode faltar vergonha e decoro, mas não falta combustível. E o brasileiro cordial anda de saco cheio.

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