Pobres milionários


Neste final de ano, todos que não são milionários, alimentam o mesmo sonho: o de ganhar na loteria. Há até sites de probabilidades cabalísticas, ensinando o que fazer para ganhar a cobiçada mega sena da virada.

No rádio, no jornal e na televisão, antes mesmo do dinheiro na conta do banco, o assunto já é o que fazer e como gastar a rica dinheirama. Viagens exclusivas, imóveis caros, carros de luxo, aviões, iates, tudo cabe nesse sonho de uma noite de verão.

Um especialista recomenda que o novo rico diversifique as aplicações e fuja dos parentes.

Outro sugere cuidado com os velhos amigos; muitos podem ser velhacos. Importante: crie novas necessidades; as velhas necessidades saberão cuidar de si.

Mas, para ganhar, deve-se antes jogar. E aqui, mais que especialistas, há teóricos das probabilidades em experimentos aleatórios. Prefira bolões que, apostando em mais números, terá mais chances; na dúvida sobre números escolha os de finais 9 e zero. Sem razão aparente, recomenda-se não apostar em números seguidos e evitar os números que jamais foram sorteados. Ora, se os números não sabem que são números e, se nunca antes foram sorteados, é porque devem esconder um motivo cabalístico.

Nessa hora de tantos milionários em sonhos, não custa revisitar George Bernard Shaw em sua obra “Socialismo para Milionários”, tradução de Paulo Rónai.

Shaw lamenta que ninguém tenha pena do milionário que, sendo já muito rico, não pode fazer planos novos nem acalentar o doce sonho de vir a ser rico.

Ninguém se importa com a triste classe dos milionários, a não ser os fabricantes de produtos excêntricos. Segundo Shaw, ao milionário infeliz cabe a responsabilidade de uma fortuna prodigiosa sem a possibilidade de se divertir mais do que qualquer homem medianamente rico e, em alguns casos, nem tanto quanto muita gente pobre. O cavalo do milionário quem monta é o empregado; seu esportivo de luxo está nas mãos do chauffeur e ele é incapaz de vestir mais de um terno ao mesmo tempo ou comer com mais apetite do que seu mordomo.

O milionário pode pagar por um sanduíche de pavão, mas raramente se regalará com pão e mortadela. E Shaw lamenta a solidão do milionário: não há quem lhe estenda a mão a não ser para pedir. Além de carregar a culpa de que há gente morrendo de fome, cada vez menos os mais milionários estão em condições de gastar do próprio dinheiro consigo mesmos.

Bernard Shaw conhecia os amigos e os ricos. Certa vez convidou Winston Churchill, o primeiro ministro inglês, para a estréia de uma de suas peças: “Reservei-lhe dois ingressos para minha primeira representação. Venha e traga um amigo, se o tiver”.

Telegrama de resposta de Winston Churchill: “Impossível assistir primeira representação. Assistirei segunda, se a tiver”.