Linha por linha

 

Tudo começou quando a Cidade da Música foi transformada em Cidade das Artes e a Barra da Tijuca ganhou uma bela biblioteca. Não uma biblioteca parque, nos moldes das momentaneamente fechadas pelo estado falido. Talvez uma biblioteca praia, apesar dos cerca de 1200m que a separam do belíssimo mar multicultural onde deságuam os banhistas provenientes dos ônibus comuns e BRTs das zonas Norte e Oeste.

Portanto, há gente a dar com o pau no Alvorada. Não, isso nada tem a ver com um fora Temer na porrada, em pleno recato do lar. Falo, sim, do nome do gigantesco terminal de ônibus anexo ao propalado fim do mundo. Como “fim do mundo”, se é pra lá que convergem centenas de milhares de cariocas de passagem pra qualquer canto do Rio ou para um cantinho na areia?

Não tenho dúvidas de que se trata de um típico preconceito desenvolvido e cultuado pelo jornalismo cultural preguiçoso que só deixa a Zona Sul para ir ao Centro. Ou à Cidade, como dizemos aqui pela Barra, cujo grande pecado, divulgado, aceito e multiplicado pelos sem argumentos, é o de não ter esquinas, apesar de – para ficar no terreno da biblioteca praia - Érico Veríssimo encontrar o responsável pela urbanização, Lúcio Costa, a 10m da areia.

O fato é que doei praticamente todos os meus livros de arte, reunidos em 20 anos de atividades ligadas à área de patrocínios, à Cidade das Artes. Parafraseando César – não o faraó Maia, culpado pelo exorbitante custo do belo elefante cinza - às artes o que é das artes.

Doação de peso, o produto deve ter atingido a casa das toneladas entre catálogos de exposições, mostras, memórias de restaurações, acervos, coletâneas e outras publicações de capa dura. Não satisfeito, me desfiz de quase todos os romances e biografias que ocuparam as minhas estantes e bagunças similares do chão ao teto. Tudo foi pra lá há cerca de dois anos.

Entretanto, desde a inauguração da bendita Linha 4, obra olímpica que nos fez (re)encontrar as esquinas em 10 minutos de frio siberiano, resolvi montar uma biblioteca móvel nos vagões de metrô e trem com o que reuni nos últimos tempos de leituras e últimos remanescentes de minhas próprias escritas.

O “Linha por linha” é um projeto de incentivo à leitura que não usa incentivo fiscal federal, estadual ou municipal. O incentivo é meu. Tenta trabalhar com exemplares circulantes, com instruções para que voltem às linhas após o capítulo final ou a perda de paciência do leitor, o que vier primeiro. Fora do que há nas obras deixadas nos bancos dos vagões do metrô, não tem nada nas entrelinhas. Trata-se da minha contribuição aos “sem livros”, a meu ver uma forma bastante útil para o beneficiário direto não se tornar um sem isso ou sem aquilo. Se o cinema é a melhor diversão, o livro é sempre melhor que o filme. Linha por linha - breve em um banco perto de você. Boas leituras em 2017.

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