Gente boa também erra


Veiculada em tempos de massacres atrozes e barbáries circulantes na rede, a campanha publicitária promovida pelo Ministério dos Transportes – gente boa também mata – não podia ter escolhido momento mais inoportuno para ser colocada no ar e nas ruas.

Concebida para chocar, culpa e dolo duelam no ambiente em que está inserida a propaganda. Mas quem haveria de se chocar com as mortes fictícias diante das decapitações e esquartejamentos reais, de causar arrepios e náuseas aos piores carrascos do Estado Islâmico?

Indubitavelmente, trata-se de um sucesso culposo de público e doloso de crítica, pois teve o seu conceito popularizado por via transversa.

De certa forma, a campanha logrou atingir o objetivo, ao levar o conteúdo à população, ainda que com personagens e mensagens trocadas. Pela primeira vez, a turma do #ForaTemer incluiu o atual ocupante na condição de presidente legítimo, mesmo em protesto contra medidas tomadas por sua base.

Já nas desastrosas peças exibidas, o material atropelou o bom senso. Buscou retratar situações de filantropia e trabalho voluntário para realçar faltas passíveis nas pessoas em geral.

Preparada para desperdiçar dinheiro público, matou a pau, ao dizer o óbvio e provocar a ira dos compulsórios contribuintes. E isso como se a realidade não nos brindasse todos os dias com tragédias gratuitas.

“O melhor aluno da sala pode matar” é, a meu ver, o título mais imbecil de toda a campanha. Sim, porque desde a infância fomos acostumados aos gênios do mal, que bolavam as mortes mais mirabolantes e cruéis para eliminar Batman e Robin, 007 que o diga. Também pelo cinema, efeito colateral de Hollywood, aprendemos que Hannibal Lecter, o famoso canibal, deve ter sido o melhor da turma antes de enveredar pelo vício da gastronomia humana.

“Quem resgata animais na rua pode matar”, passamos a saber depois das dezenas de milhões gastos na perdulária empreitada. Mas quem emprega mal o dinheiro público mata muito mais.