Jantar quase secreto

Depois da queda do comando vermelho em Brasília, por inépcia da comandanta que caiu ao pedalar sem segurança, trava-se, enfim, o temido combate entre os amigos dos amigos do PMDB e o provisório semiaberto do Centrão. Em vez de quentinhas, têm sido servidos jantares quentes, pois não há almoço grátis. E todos querem um lugar na mesa.

Curioso é que estou lendo o excepcional livro Jantar Secreto, de Raphael Montes, que trata de canibalismo gourmet, entre outras iguarias extraídas do nem sempre delicioso texto. Afinal, há que se quebrar ovos para o preparo de omeletes de gaivotas aux fines herbes. Perto da sobremesa, não cometerei spoiler; apenas irei destacar, aqui e ali, e sempre em consonância com o atual ambiente antropofágico reinante em Brasília, o que já foi apresentado em sinopse, artigo ou entrevista do autor.

Sem querer tapar o sol quadrado com a peneira radial circular em aço inox, há mais fogo e paixão nessa disputa do que na última, a que elegeu Cunha, hoje o virtual papa da turma encarregada da limpeza no cárcere curitibano. Isso apesar de o chefão do tráfico de influência maligna andar espremido politicamente entre os ministérios públicos suíço e o similar paranaense e, geograficamente, no meio do tiroteio entre as facções paulista e catarinense.

O fato é que, da imposta clausura, por meio de emissários, o líder supremo dos bastidores da bastilha mandou unir o Centrão em torno de um nome único. Ou seja, em bom português, o xerife mandou Jovair combinar com os russos, principalmente o Rosso. Do contrário, somente a justiça, que não anda tolerante, poderá afastar o gorducho do primeiro comando sem tampão.

Seguindo o advogado de defesa do presidente em exercício no Planalto – por acidente, o titular está em Portugal -, conceituado criminalista contratado pelo sogro com o aval do papai coruja, a reincidência só estaria configurada caso não houvesse assalto ao poder legislativo derivado de golpe com vítima fatal.

O estarrecedor desse debate é que o PT foi convidado na maciota para um jantar, hoje vazado pela coluna Panorama Político. No cardápio, foi oferecida ao comensal petista a vice-presidência da Câmara, mais ardente do que nunca.

Em outras palavras, próximas da escatologia presente nesses jantares secretos, foram oferecidas ao representante os restos do coração valente para degustação em troca de 57 votos. Eviscerados da golpeada, eles deverão ser o fiel da balança na sangrenta empreitada programada para fevereiro.

“O PT quer ser parte da mesa” – assim falou Zaratini, o Zaratustra da hora, pragmático petista pra Nietzsche nenhum botar defeito. Além da carne maturada em acelerada decomposição, os correligionários entrarão como toalhas, copos, talheres, sousplats ou como alimento do Centrão? Bon appetit.

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