Os rivais!

 

No auge da disputa pela audiência dos domingos, início dos anos 70, os dois se enfrentavam. O Velho dizia que se tivesse a metade da simpatia e alegria que o Silvio Santos transmitia, seria o maior comunicador da televisão brasileira.
Estiveram frente a frente, como nessa foto, não mais do que umas dez vezes, no máximo. Um e outro se admiravam mutuamente, mas guardavam uma distância cerimonial. Talvez naquele clima de que dois bicudos não se beijam.
Eu cuidava dos negócios do Silvio em Brasília, o SBT vivia seus primeiros anos de implantação e o nosso foco era criar a Rede de Televisão que hoje é uma bonita realidade.
Papai, com a falência da Rede Tupi, depois de passar uns 2 anos muito difíceis, sem espaço na Televisão, voltara ao ar na Bandeirantes. O "Boa Noite Brasil!" Ele não estava muito feliz, pois se sentia muito cansado por ter que estar 5 dias por semana no ar. Reclamava comigo também que os pagamentos atrasavam.
Um dia, no início de 83, conversava por telefone com o patrão e depois de encerrar o assunto que tratávamos perguntei de chofre, sem refletir antes. "Silvio, você quer Flavio Cavalcanti no SBT?" Depois de um silêncio que me pareceu interminável ele, com a franqueza que as vezes chegava a soar rude, responde: Não!
Super constrangido, devolvi com um OK, e me despedi. Silvio me interrompeu e disse: "Espera, eu preciso te explicar" e eu: Você não tem que me explicar nada. Tem todo o direito". Mas ele insiste: "Flavinho, o SBT está dando os primeiros passos, não acho que tenha condições ainda de dar suporte e estrutura para duas prima donas!"
Achei curioso o argumento, desliguei o telefone e voltei a trabalhar. Meia hora depois, me liga o Luciano Callegari, Diretor de Programação da Casa, indagando sobre a conversa que tive com o Silvio e perguntando quanto custaria o Flávio, para um programa semanal. Respondi que não tinha ideia, mas que falaria com o pai. Silvio havia dado o sinal verde para encaminhar a contratação.
Todo feliz, ligo para o Velho e faço a mesma pergunta, ao contrário da que havia feito ao Silvio. "Pai, o senhor quer vir para o SBT fazer um programa semanal? Resposta imediata dele: Não! Comecei a gargalhar e ele chateado indaga por que estava rindo. Dou uma enrolada para ouvi-lo dizer, que o SBT ainda era muito pequeno para duas estrelas conviverem. Ri mais ainda e falei sobre remuneração. Soltou a cifra pretendida. Liguei de volta pro Luciano que me pediu tempo. No dia seguinte me liga que estava Ok! Peguei então um avião para São Paulo, fui até o apartamento do Velho, discutimos muito e ele acaba, docemente constrangido, topando. Na manhã seguinte desembarcam advogados e executivos da Emissora, com um contrato, que depois de pequenos ajuste é assinado.
Desse modo, 48 horas depois do primeiros Não, Papai ingressa no SBT, onde permaneceria feliz da vida até seu pré maturo falecimento em 1986.

 

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