O bizu da Sabatina

Não é para ser escondida no bolso do paletó, pois não chega a ser uma cola, termo muito forte para um candidato ao Supremo, mas convém a quem almeja ser bafejado por Temer e vestir a toga ter acesso ao bizu da sabatina no Senado. Isso fará com que o potencial felizardo conserve algumas respostas na ponta da língua.

Ao contrário do que é dito na imprensa, a sabatina não é realizada após a indicação, mas antes. Na verdade, o teste já começou. A lista dos possíveis ministros é grande, pois a pressão exercida por aqueles que entendem que a prisão de um colarinho branco só deve ocorrer depois de esgotados todos os recursos interpostos por seus caríssimos advogados é imensa. A fila de interessados faz dobrar o quarteirão da Ordem, sempre mobilizada pela crescente reserva de mercado.

Enquanto os faturamentos das grandes empreiteiras despencaram com a Operação Lava-jato, suas despesas jurídicas cresceram exponencialmente. Daí que essa bonança proveniente da tempestade alheia pode e deve prosseguir na leniência até o trânsito em julgado, a ser mantido engarrafado nas calendas, ao sabor de suaves prescrições anuais.

Isso fora o inesgotável filão trabalhista oriundo dos estados falidos e servidores desesperados, dispostos a darem altas comissões por liminares, feijão com arroz de inúmeras causas conjuntas cujas somatórias costumam atingir proporções pantagruélicas.

Voltando ao lado prático da inquisição, forma de reconhecer o canhoto que poderia lhes levar a alma do paraíso terrestre, se os senadores já são mestres na arte de legislar em causa própria, e muitos estão apavorados com a possibilidade nada remota de encararem uma cana dura, por que, diabos, eles haveriam de aprovar um candidato que defendesse a prisão imediatamente após a segunda instância? Se o placar estava em 6 a 5 em favor da prisão imediata com Teori no grupo até aqui vencedor, bastará a nomeação de um defensor do lado perdedor e partir pro abraço. E pros discursos, naturalmente.

Sorte do agraciado que a essência do bizu pode conter belíssimas páginas da nossa literatura jurídica, com defesas incondicionais da liberdade, no caso de restar uma mínima sombra de dúvida sobre a culpabilidade ou dolo a favor do abastado réu; se a teia de recursos ainda não foi de todo esgotada. Sobretudo se tal emaranhado tivesse origem na defesa daquele que o julga no momento da sabatina. Que o aprova ou reprova, como fez recentemente o implacável Renan com a totalidade do plenário.

“Um político com foro privilegiado só deve ser encarcerado depois da cassação pelos pares e, a partir daí, do julgamento de todos os recursos cabíveis, até a prescrição do crime ou do engarrafado trânsito em julgado, o que ocorrer antes.” Este é o bizu.