A criada, Elle e Manchester à beira mar


Não entendo como um filme como “A criada” não está entre os candidatos a melhor filme estrangeiro do Oscar. Assim como também “Ellle”, a obra magnífica dirigida por Paul Verhoeven. Ainda bem que lembraram de Isabelle Huppert, candidata a melhor atriz . Chaan Wook Park é mestre nas narrativas que envolvem inesperadas reviravoltas. E constrói o seu arcabouço artístico usando técnicas engenhosas de edição. “A criada”, seu último filme em cartaz no Rio de Janeiro, pelo fato de ser dividido em 3 partes acaba funcionando como se fosse o desenrolar de um novelo, pois o flashback é usado para voltar a uma cena já mostrada, mas sob um novo ângulo e sob nova percepção. O que não ficou claro na primeira parte fica esclarecido na segunda. Se algo pareceu azul numa das partes pode aparecer vermelho na outra, unindo as pontas para que a trama ganhe um novo entendimento. Na verdade, o diretor coreano mexe com o universo feminino de forma surpreendente, envolvendo uma forte carga erótica, e leva a extremos sentimentos que envolvem crime, castigo, vingança e sedução nas franjas da ambição e da loucura. Por ser também autor do roteiro, o diretor acaba tendo total domínio daquilo que quer passar e, com uma linguagem metafórica e alegórica entrega uma estética cinematográfica totalmente inspirada, como já havia demonstrado em “Old Boy”. “Manchester à beira mar” é um filme extremamente triste, pois além dos eventos, das fatalidades, ele acaba focando num personagem náufrago da sua própria existência. Um “looser”, como se diz na América. As histórias americanas preferem sempre retratar personagens que se superam, e que, mesmo surpreendidos com revezes dramáticos, encontram forças para superá-las. Este filme não escolhe esse caminho. Casey Affleck compõe o personagem amargurado com uma sinceridade enorme. E faz do irmão mais novo do Ben Affleck um forte candidato ao Oscar de melhor ator. A paisagem gelada de Massachussets ajuda a compor um cenário de vazio e de desolação. Keneth Lonergan também é roteirista e diretor e mostra um jeito todo especial para lidar com dramas familiares, desajustes e perdas. Vale também por uma atuação primorosa do jovem Lucas Hedges, candidato a melhor coadjuvante. Michelle Williams tem poucas oportunidades de brilhar, mas aquilo que faz o faz com correção. Não esperem uma obra-prima, mas um filme bem construindo e recheado de genuína emoção.