O teu cabelo não nega

Este ano não vai ser igual àquele que passou. Depois de muitos carnavais, finalmente haverá uma grande marcha contra as marchinhas agressoras dos direitos humanos. Portanto, vamos abrir alas aos que se opõem, por exemplo, ao compulsório corte da cabeleira do Zezé ou de um XX qualquer. Se ainda não restou provado que ele é transviado, bossa nova ou Maomé, verdadeiros atentados à liberdade religiosa, à mudança de orientação de gênero e à expressão sonora de um desafinado, em cujo peito também bate um coração; se as pesquisas de opinião com segura margem de erro ainda não comprovaram com 95% de chance de efetividade que é dos carecas que elas gostam mais; se o trânsito em julgado não foi fechado para possibilitar a progressão de regime hipocalórico, com muitas frutas, in dubio pro reo.

Por outro lado da folia, lutemos contra o pirata da perna de pau, símbolo do contrabando, da sonegação e do crime ambiental, caracterizado pelo comércio ilegal de aves silvestres falantes. Já o tapa-olho é um acinte perpetrado contra os deficientes visuais, além de sugestiva tentativa de burla à proibição da máscara da estrela de Pasadena, que, por sinal, ofende ruivas, ruivinhas e presidentas de conselhos de administração.   

Promovida pelo bloco ligado aos movimentos GBLTXYZAEIOU, dabliú, dabliú, da cartilha doutrinária da Juju, a fantasia desmascarada pelos denunciantes do bullying carnavalesco saiu do armário para barrar a passagem de Maria Sapatão. Guardada, pendurada pelos neofascistas que minam as instituições sub-repticiamente, a marchinha afirma que a personagem de dia é Maria. E de noite, João. Esses medievais esquecem-se do nome social, pasmem!

Como se a companheira discriminada sofresse de algum distúrbio psiquiátrico. Ou pior, como se a dupla personalidade fosse função do movimento de rotação da Terra. Imaginem, por exemplo, se João fosse acusado de roubar a mulher do Rui no meio do salão. E se Maria fosse a própria mulher da aludida vítima? Como registrar o BO? O boletim de ocorrência na delegacia da mulher, antes ou depois das seis da tarde, de que forma seria lavrado? E com o horário de verão? Como seria tratado pelas autoridades competentes?   

“Índio quer apito, se não der pau vai comer”. Estes versos são os piores e deveriam ser banidos para sempre do cancioneiro popular. Constitui crime inafiançável de racismo contra os povos indígenas. Contém agravante de agressão sexual e flagrante intolerância religiosa a afirmação de que índio pratica extorsão mediante implícito sequestro relâmpago, cujo deus é Tupã, mantendo a suposta vítima, a mulher do branco, ameaçada de ser comida por pau no caso de o agudo instrumento sonoro não ser entregue a tempo e a hora. Em paralelo, a peremptória recusa do colar esquisito pelo índio retratado na marchinha representa afronta ao artesanato e ao design multiétnico. Louro, moreno, liso, escorrido, encaracolado, black-power, moicano, o teu cabelo não negará boicote às marchinhas que promovem e alimentam o ódio racial.

Please reload