As trapaças da sorte


A sorte foi eletronicamente lançada a partir da migração espontânea de um ministro da primeira para a segunda turma da Suprema Corte, âmbito da investigação que vinha abalando as arcaicas, porém sólidas estruturas da sociedade entre amigos, onde o privilégio constituía a única joia, não raro adquirida em espécie na H Stern ou Antonio Bernardo.

Quem conhece o código-fonte que rege o sorteio da megaquina jurídica, sabe que ali tudo funciona por música eletrônica, um verdadeiro horror, razão para um lúcido e melodioso arranjo de última hora.

Portanto, na percussão, 4 balas voltavam a preencher o velho tambor de 5 câmaras não legislativas, sujeitas a destruir os tímpanos da vizinhança caso a roleta russa às avessas não fosse devidamente combinada com os próprios conterrâneos de Tchaikovsky e súditos de Putin.

Trechos inéditos, combinados a inúmeros fraseados de domínio público, ofereciam o diapasão da obra a ser executada, composição tragicamente interrompida pela súbita morte do condutor, já perto de adentrar as coxias onde receberia as últimas partituras analisadas pelos virtuoses, talentos acostumados a grandes interpretações mesmo em leitura à primeira vista.

Tudo conduzia à primeira audição mundial da peça de concerto, principal atração do programa, composta de cordas na casa de enforcados, metais – prata e ouro, inclusive negro, madeiras de dar em doidos e 77 vozes em intrincada harmonia.

A despeito dos tradicionais figurinos já pendurados nos camarins, o compasso de espera, comum a vários naipes, transformaria os tons mais graves em sofridos agudos, além das pausas intermináveis.

Felizmente, considerado o afortunado acerto da megaquina, aproxima-se a utópica obra prima; la prima senza superfaturamento, la prima senza cartel, mas ainda longe do gran finale. Façam o seu jogo.