Mais filmes do Oscar

Apesar de não achar que o Oscar seja necessariamente selo de qualidade, é pelo menos divertido esse frenesi que ocorre nesta época do ano em que uma penca de lançamentos simultâneos faz com que pessoas, quase sempre indiferentes ao cinema, fiquem motivadas a fazer suas apostas. Com 9 filmes candidatos ao careca que já tem nada menos que 90 anos, só me faltam ver LION, ESTRELAS ALÉM DO TEMPO e ATÉ O ULTIMO HOMEM. Esse último, do Mel Gibson praticando um sadismo sanguinário, vou deixar passar.

Dos 6 filmes vistos eu teria, pela ordem, a seguinte escolha: MOONLIGHT levaria o prêmio por ser o filme que aborda as questões mais relevantes, por ter um diretor estreante que demonstrou extremo domínio sobre a emoção e por uma narrativa cheia de sutilezas e não ditos recheados de carga dramática. Sobre ele, alonguei-me mais no comentário publicado aqui no D.P. recentemente.

Em segundo lugar, colocaria o excelente A QUALQUER CUSTO (Hell of hight water), um brilhante ensaio que David Mackenzie faz de uma região do Texas repleto de almas mortas. Trata-se de um western moderno em que as diligências e os cavalos são as camionetes ( trucks) e as trilhas são asfaltadas. Mas a paisagem madorrenta e a vida dos seus poucos habitantes é a mesma do velho oeste. Mas a dupla de caubóis que assalta os bancos, os mesmos espoliadores que destroem o sonho do rancho próprio com pesadas prestações de hipoteca, lembra bastante a inesquecível dupla Butch Cassidy e Sundance Kid. Há também uma forte abordagem auto-crítica ao antigo dominio comanche que eram ali conhecidos como “lords of the plains” e hoje seguem como “lords of nothing”. Os dois caubóis são vividos por Ben Foster e Chris Pine, e o policial na última operação antes de sua aposentadoria é vivido por Jeff Bridges que cresceu em talento com a idade, aperfeiçoando cada vez mais aquela sua maneira tão peculiar de falar que parece ter um ovo na boca.

Em terceiro lugar, viria MANCHESTER Á BEIRA MAR, cujos comentários também já foram publicados aqui neste Diário. Logo em seguida, ocupando um honroso quarto lugar entre os 9 postulantes viria certamente o musical que está atraindo fãs por todos os lados, cheio de homenagens e referências à idade de ouro de Holywood e tem uma canção que fica retida na mente por um bom tempo. Já disse antes, em comentário já publicado, que LA LA LAND está um tanto super estimado, mas sem dúvida é um filme agradável com excelentes momentos.

No fim da lista (5º. E 6º.) viriam UM LIMITE ENTRE NÓS (Fences) e A CHEGADA (Arrival). O primeiro acaba se perdendo numa falação infernal sobretudo nos primeiros 30 minutos, custa demais a pegar e, com a honrosa exceção do show de bola de Denzel Washington, não acrescenta grande coisa. E o também bastante incensado pela crítica “A Chegada” traz uma temática pretensiosa envolvendo física quântica, ficção científica, alienígenas estranhíssimos e, ainda por cima, a questão incômoda de colocar os Estados Unidos como salvadores da humanidade. Na era Trump isso fica ainda mais ridículo.

Concluindo, a maioria dos filmes cuida de temáticas que absorvem questões de minorias que tentam driblar obstáculos imensos para tentar chegar a algum lugar almejado e driblar frustrações. Isso é bom, pois descortina uma América que não é feita só de sucesso e de grandes vencedores. Refletem sim, com coragem e espírito crítico o avesso cinzento de uma sociedade que apesar de ter atingido tantos avanços ainda tem parte da sua população à margem desse modelo.

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