A sangria desatada e o torniquete seletivo

 Se você ainda não viu, caro leitor, encantadora leitora, há um vídeo narrado por Josias de Souza, postado em seu blog no UOL Notícias no último dia 10, que vale a pena ser conferido, interessantíssimo que é sob todos os aspectos. Ou quase todos.

Circula a jato pelas redes sociais, pois resume as gravações feitas pelo premiado delator Sérgio Machado com uma boa dose de humor não negro – recurso talvez já proibido por incentivo subliminar ao racismo -, mas acaju, o tom preferido dos senadores.

Creio que a velocidade de propagação do campeão de audiência decorreu não só da robusta parcela da população pró-Lava-jato, mas também da considerável acolhida que recebeu dos petistas e de seus similares, fato que concorreu para a imediata viralização da mensagem no WhatsApp e no Facebook.

O material denuncia a flagrante tentativa de estancamento da sangria causada pela Lava-jato, razão pela qual recebeu o sugestivo apelido de operação Torniquete.

Palmas para quem encontrou uma forma bem didática de resumir a aliança entre réus, investigados e potenciais acusados, ali representados não só pelos atingidos pelas machadadas, Renan, Jucá e Sarney, mas também pelos velhos amigos tucanos, como reforça a locução enquanto exibe Aécio em close ao lado dos fisgados. O problema é que tal resumo resumiu demais.

Cadê o marido devastado, que recebeu Michel, Sarney e Renan no Sírio Libanês para nove dedos de prosa? Cadê o inescrupuloso orador de velório, que aproveitou os holofotes para desancar a operação Lava-jato ao lado do caixão da esposa? Cadê o principal réu, investigado e acusado da história do Petrolão? Cadê o xodó da Odebrecht, que só é lembrada ao mostrar o privilegiado afago ao Angorá?

Parece um torniquete seletivo essa edição, que permite a hemorragia das raposas golpeadas por Machado e tucanos aliados, mas limpa quaisquer vestígios de quem acusou as autoridades da Lava-jato de facínoras; que suprime o trabalho de obstrução de justiça do profissional da política mais sórdida; que esconde quem não teve dúvidas em aproveitar um trágico palanque improvisado para apontar em direção à força-tarefa da Lava-jato; que omite quem discursou com vistas a atingir procuradores e juízes de primeira instância – os tais juizecos de Renan -, verdadeiros responsáveis pela morte prematura da mulher.

“Impróprio para menores” – esta é a classificação do filme em questão. Sim, conviria tirar as crianças da sala, como alerta o narrador. Porém também conviria que o mesmo narrador completasse a enorme lacuna deixada pela produção. Pelo que se deduz da matéria, se os profissionais do PMDB tivessem entrado em ação com maior antecedência, dona Marisa ainda estaria viva, na paz de São Bernardo.

Portanto, com os efusivos cumprimentos pelo primeiro capítulo, que venha o segundo da série, com o patrocínio da Transpetro, Odebrecht e OAS.

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