Canto claustrofóbico do exílio

“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.”

Confesso que, ao abrir o jornal de hoje, a revolta tomou conta de mim. Mas não, evidentemente, pela indenização que deverei pagar aos presos mal acomodados, a exemplo de Cabral, governante que não pensou duas vezes antes de sacrificar o conforto e a própria liberdade para conhecer in loco o problema dos presidiários.

Com a devida expertise, a partir de sua claustrofóbica cela em Bangu, nosso inesquecível comandante pacificador somou forças para resolver de uma vez por todas a até aqui insolúvel questão da superpopulação carcerária. O problema afligia o povo brasileiro desde Tiradentes, cujos cabelos longos provocaram infestações de piolhos coloniais que deram origem ao atual corte republicano, imposto pelo sistema.

O problema da superlotação passa a ser financeiro, fiscal, nada que uma reforma tributária que incorpore alguns impostos a mais não resolva a contento. Solução redonda, formulada por advogados para advogados, julgada por advogados licenciados e bem intencionados, merece o costumeiro aplauso da OAB, instituição sempre preocupada com o bem-estar da população de ambos os lados das grades, sejam dos edifícios, sejam das prisões.

Porém não foi o mencionado herói inconfidente, mártir de 20% de carga tributária, o famoso quinto dos infernos, o responsável por minha indignação. O objeto de tal revolta foi o fato de Paulinho de Lula, o delator-mor da Lava-jato, espécie moderna de Silvério dos Reis, viver enforcado por problemas financeiros. À míngua por causa de causas perdidas, sofre por conta de contas bloqueadas aqui e no exterior.

O marginal, coitado, não tem dinheiro nem para voar para Curitiba, capital do estado em que nasceu. Preso à sua humilde mansão em Itaipava, nem pôde apelar à família que roubou unida e permaneceu unida. Parcimonioso e controlado, o autoexilado há de testemunhar justamente contra Cabral por meio de videoconferência.

Tivesse o acórdão do STF em vigor por ocasião de seus dias nas superlotadas prisões de Curitiba e São José dos Pinhais, Paulinho, de posse de sua indenização ao encarcerado em dinheiro vivo, teria melhor sorte que o poeta Gonçalves Dias; ao menos o suficiente para deixar o exílio em Itaipava e rever a terra natal, onde cantou como um sabiá.

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