Fome de Poder

O ser humano, ao enxergar uma possibilidade de alcançar o produto de sua ambição, embriaga-se com ela sem medir muito as consequências. Justificando a crença de Rousseau, que via no meio a origem da contaminação do mal, “Fome de poder” (The  Founder) cria um painel que mostra, sem rodeios, as garras de um capitalismo selvagem, onde códigos como lealdade e outros princípios éticos desaparecem sufocados pela ganância do poder e do dinheiro.

Na verdade, ao mesmo tempo que fica claro que sem certas ousadias não se cria um império que gera milhares (talvez milhões) de empregos, fica também a certeza de que sem rasteiras, ora no concorrente, ora naquele que fica paralisado por uma crise de miopia, não se faz a roda girar até ganhar proporções globais.
Ray Kroc (Michael Keaton) dá com os burros n’água seguidamente nas suas tentativas de sobreviver com vendas de produtos para restaurantes, até o dia que encontra os irmãos MacDonald (Nick Offerman e John Carrol Lynch), donos de apenas uma unidade na cidade de San Bernardino, na California, mas com uma fórmula inteiramente nova, rápida e eficiente de vender refeições. 

Ao idealizar a franquia como forma de expansão, Michael ainda enfrenta muitas dificuldades, até que uma reviravolta de foco começa a abrir um imenso e promissor horizonte.
John Le Hancock (Um sonho possível) imprime um bom ritmo no roteiro de Robert Siegel (que segue o andamento biográfico já utilizado em “ O lutador”), e evita quase sempre os clichês que, aqui tanto poderiam estar na repetição de mantras como persistência, foco e livros de auto-ajuda, como também na irresistível fórmula maniqueísta. Como filme biográfico, segue uma linha sem criar muito adorno. E acaba funcionando bem, até por poder contar com um inspirado Michael Keaton, extremamente à vontade no personagem recheado de ambiguidades.

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