Sobre matar elefantes

Culpa quase sempre a má comunicação o governo que não consegue capturar a confiança e a simpatia populares. De fato, coleciona erros enormes nessa área, mas propaganda não pode tudo. A vaidade encobre outros erros.

Desde logo, o governo falhou na mensagem clara sobre as razões anormais que o levaram ao poder e os compromissos a assumir com a Nação em momento tão grave. Achou que bastava surfar na onda colossal do impeachment, esquecendo-se de que muitos brasileiros sequer sabiam suas conseqüências. Surfistas descrevem ondas mortais: “a pancada é muito forte. É como se entrar num ringue com 100 pessoas e todas batendo na mesma hora”.

Logo mostrou despreparo para o exercício do poder tão almejado. O governo, tendo pouco tempo, não tinha doutrina. No esforço da governabilidade, foi buscar o programa do vizinho; pareceu imposição para uns e concessão para outros. E, se a mensagem afinal era de reforma e avanço, escolheu mal a equipe com ranço de mal feitos. Ficou a impressão de que a troca renovadora foi de seis por meia dúzia. A mensagem de renovação não ecoou.

Assim, suspirando mesóclises entre os velhos players da velha política, a estratégia de jogar toda a culpa dos males no passado não colou. Em que pese o apoio benevolente da imprensa, avolumaram-se denúncias, demissões, acordos mal digeridos.

Foi pendurar a imagem de ordem e progresso na urgente necessidade das reformas. Como os “reformistas” todos têm já assegurados direitos especiais de aposentadoria, não conseguiram explicar aos “outros” as razões da urgência, da abrangência, do alcance. O governo sem doutrina e sem tempo, que se cerca mal, passou a imagem de governo sem disciplina, sem sinceridade e sem coragem para enfrentar as bases, governadores e prefeitos. Recuos e incertezas passaram a dar o tom de um governo que não consegue sair das cordas democráticas do Congresso.

E por que não consegue? Atribui-se ao russo Gorbachev: “matar o elefante é fácil; difícil é remover o cadáver”. Chegar ao poder é fácil; difícil é reparti-lo.

O presidente viu aos poucos minguar o apoio que julgava manobrar no Congresso ao abdicar muito cedo da candidatura natural à reeleição. Num gesto de desambição política, declarou-se logo “pato manco”, oferecendo sua humildade patriótica para o julgamento da história e dando a largada para corrida presidencial de 2018. Igual erro cometeu Castelo Branco, num ato que, nas palavras de Juracy Magalhães, “o subia moralmente, mas o governo não lucrava”.

A falta de doutrina, a falta de programa, a falta de firmeza, o pouco tempo, a pouca coragem, os recuos e as incertezas, tudo isso seria de pouca importância, num regime presidencialista, se o presidente não tivesse abdicado tão pronto do poder de barganha sobre a sucessão, transferindo respeitosamente o poder de fato para os interesses dos oportunistas da sobrevivência.

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