Flores de outono


Melhor falar de flores, não?

De quaresmeiras enfeitadas de rosa, violeta e azul.

De fedegosos amarelos, como ouro encrostado nas matas.

Não esquecer embaúbas, com suas folhas prateadas brilhando ao sol, escondendo cachos de fruta e saltitantes Jacus…

Flores são um convite à orgia.

Sempre exuberantes em sua delicadeza. Sempre capazes de chamar atenção.

Esse ano ainda não vi as flores de outono.

O olhar se perdeu na enxurrada que desce pelas encostas, nos barrancos deslizando aqui e ali, na mata despida, os ossos da terra postos pra fora.

A terra odebrecha partida.

E as flores? E suas doces promessas?

Acumulando no vale, a lama invade a paisagem. Afoga a história. Enterra esperanças. Vivos tentam se livrar do peso dos mortos.

Troncos, galhos, folhas e frutos fazem parte da mesma massa disforme, que entranha na alma e faz de tudo planície.

Pesadelo sem fim. Onde foram parar os meus sonhos?

Onde estão as flores de outono? Os manacás? Saudades de seu cheiro doce, de abelhas lhes lambendo as entranhas…

Desemprego, crise, corrupção, uns contra outros, os muito vivos rapinando os quase mortos.

Ainda ontem, na selva, as lojas da zona norte fechadas em luto pelo traficante caído.

Hoje, as ruas fechadas para que privilégios não caiam.

Desiguais como as florações do outono.

O cheiro acre de frutas podres largadas no chão me falam do verão que há tanto passou.

Mas ainda não vi as flores.