Meus amigos petistas


J. é uma cirurgiã já com seus 60 anos. Estudou psiquiatria, fez formação psicanalítica e hoje trata da cabeça e da alma de Petropolitanos, além de organizar encontros e reuniões semanais de intelectuais com estudantes e formadores de opinião na Cidade Imperial.

P. acaba de fazer 60. Tem pós-doutorado em Comunicação pela USP. Foi aluno expoente da ECO nos anos 70, fez carreira no jornalismo e hoje dirige uma Instituição Federal de Ensino e Pesquisa no Rio de Janeiro, onde orienta alunos de mestrado.

Em comum, além do brilhantismo, dos muitos anos de estudo, e de pertencerem à mesma geração, ambos têm a convicção de que o PT jamais se desviou de seus pressupostos éticos; de que Lula é o grande líder de esquerda do Brasil; e que o José Dirceu é o Grande Guerreiro do Povo.

Não vejo P. há algum tempo, mas sei disso por seu irmão, que é meu irmão por escolha, e estive com J. na semana passada.

Conheço muitos assim.

Chamei de “convicção” o sentimento que os domina e caracteriza, porque quis evitar expressões como “crença”, que deixam margem para uma interpretação religiosa, dogmática, nascida na fé, que se alimenta de tudo, menos da razão.

Mas, feita a ressalva, por que não falar dessa fé cega que domina pessoas que, como P. e J., negam a realidade?

Quem não conhece de perto pessoas assim?

Não há argumento que os demova dessa fé. Não importam fatos. Aqueles que hoje denunciam suas tramóias, os comensais do passado, nada mais são do que víboras, ou inocentes úteis nas mãos de Lúcifer.

Quando você insiste, tentando uma abordagem racional, dialética, aí parece que você acordou o anti-Cristo que vive em você. Por baixo, você é coxinha, desinformado, eleitor de algum tucano. Ou alienado, desses idiotas úteis que legitimam o poder da direita.

Dependendo dos seus argumentos, imediatamente você pode ser elevado à categoria de eleitor do Bolsonaro, fascista ou neo-nazista.

Do que sei até hoje sobre as lutas de classe, aprendi que os opostos são Capital e Trabalho. Direita e Esquerda, assim representados. Patrões contra Empregados, lutando pelas sobras de produção.

Pelo que tenho visto dessa lambança exposta pela Lava-Jato, nunca a elite do Capital esteve tão mergulhada nos cofres do tesouro; tão fartamente contemplada pelos favores do Estado, quanto nesse governo supostamente de esquerda, ou eleito em nome de "Trabalhadores".

Não se passa um único dia sem que sejamos expostos à promiscuidade entre governantes e capitalistas. Sejam os tubarões tupiniquins, sejam os barões do velho mundo, como a SMB, o Belga que fez a tramóia de Pasadena, ou as empresas de nome esquisito, que vendem plataformas, compram campos de petróleo…

Não se pode apagar os benefícios de inclusão social dos governos petistas. Eles são concretos.

Da mesma forma que não se pode dissociar o crescimento da década passada da expansão mundial, e da estabilidade de nossa moeda. A História - e os fatos que a narram - são os pilares do nosso destino.

Da mesma forma, não se pode dissociar o sentimento de impunidade que levou Sérgio Cabral - um oportunista cevado no PSDB e embalado pela amizade de Lula e Dilma - a roubar desavergonhada e ilimitadamente por mais de uma década, inclusive após o término do seu governo, desse “climão” que dominou o Brasil neste milênio. Todos andaram roubando. Muito.

A promiscuidade deu o tom. Ambos - ricos e governantes - chafurdaram na merda, como poderia ter dito o Jacques Wagner, se não tivesse escolhido o metafórico "melado".

Negar isso pode ser um exercício de auto-preservação. Com certeza ajuda a dormir.

Mas não faz bem à reconstrução da vida nacional. Não vai impedir que os espertos, atracados nas tetas do estado (e nem se falou dos banqueiros, ainda) continuem sugando todo o oxigênio do quarto exíguo em que vivemos.

É preciso desnudar suas falácias, como as palavras de ordem, os mantras de rima fácil.

Como esse último cunhado ontem no berço da serpente: Brasil, urgente. Lula Presidente.

Só se for para o Grêmio Recreativo dos Internos de São José dos Pinhais. Ou da Papuda.

#petistas #roubo #corrupção #negação