Maquiavélicos

16/05/2017

No final do governo FHC, quando se discutia se Serra seria o melhor candidato das forças incrustadas no poder (quase duas décadas de compadrio entre situacionistas e pseudo-dissidentes pós Figueiredo, abençoados pelo eterno PMDB), me chamou a atenção uma declaração do então presidente sobre as possibilidades da eleição de Lula, e de um eventual governo petista.

Grosso modo, dizia ele que, àquela altura, a eleição de Lula poderia servir para afastar o PT do poder definitivamente, diante dos possíveis estragos de sua gestão.

Em 2005, no auge da CPI do Mensalão - hoje, com as entranhas do Congresso postas à luz do sol, me pergunto como tudo aquilo pode acontecer - novamente veio à tona uma idéia parecida, sugerindo que a medida mais eficaz contra a ameaça petista seria deixar Lula e seu governo “sangrarem até morrer”.

Poderosos como eram, é de se perguntar: se sabiam disso, por que não evitaram?

Esse contexto de recessão, desemprego, insolvência de Estados e Municípios, endividamento recorde da União - sem falar na corrupção desenfreada, no comércio quebrado etc. - me leva a perguntar: quem poderia achar esse um preço pagável?

Ouvindo a retórica do ex-ministro da fazenda para o marqueteiro, segundo quem o capital sempre vai estar a serviço do poder (e vice-e-versa), me pergunto até que ponto tudo isso não foi orquestrado com o único propósito de amealhar mais riquezas (fáceis) para as verdadeiras elites.

No meu entendimento de ex-eleitor do partido, esse foi o pecado original: as lideranças foram cooptadas, abandonaram o discurso e se apegaram ao poder e ao capital. Desde a primeira taça de vinho, aquela longínqua garrafa de Romanée Conti, em Ipanema.

Não por acaso, os pares do reino sempre foram os mesmos. Mudou o dono do navio, mas a craca continuou sendo a mesma.

O Brasil nunca pagou tantos juros pela dívida pública. Os empreiteiros nunca avançaram tanto sobre os bens de produção - agregaram aeroportos, estradas, transportes urbanos, usinas, bairros inteiros como a zona portuária do Rio, estádios.

Os mais ricos nunca expandiram tanto suas operações, em aquisições aqui e alhures, como nessas duas décadas. Com ou sem crise.

Todos os nossos grandes capitalistas, inclusive os que se voltam para o mercado, possuem vários mangotes e drenos bombeando plasma do Estado, seja em subsídios, contratos, proteções ou omissões.

Não importa que o país tenha quebrado.

Sempre poderemos mostrar os programas inclusivos, a diminuição da miséria… Mas nada disso esconde o fato de que alguns poucos estavam se locupletando com tudo isso: capitalistas enchendo as burras, políticos cevando os votos.

As instituições brasileiras estão em frangalhos: a credibilidade do Congresso é zero, a legitimidade do Executivo é cada vez mais questionada, e o Judiciário está a uma sentença do suicídio.

Enquanto isso, acordos de delação e leniência só precificam a liberdade dos verdadeiros bandidos, fazendo-os dividir os seus ganhos com as bancas de advocacia, o novo clero nesse arranjo jurídico-político em que vivemos.

Só um novo pacto, o fortalecimento do Estado em detrimento dos governos, e a renovação total  dos quadros políticos pode nos salvar do enfrentamento.

Acho que já passou da hora da freada da arrumação.

Eu mesmo estou pronto para seguir a turba. Só espero que não seja a banda.

E acho que não sou o único.

 

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