Paixões por escrito

02/06/2017

O trágico fim de Romeu e Julieta talvez seja o mais emblemático desfecho da literatura para este sentimento que nos sufoca, desequilibra e enlouquece, que é a Paixão.

Mas, com certeza e felizmente, não é o único, e nem mesmo o mais envolvente.

Eu prefiro paixões mais complexas, como a da Sra. de Rênal por Julien Sorel (Vermelho e o Negro), de Carlos por Emma, e de Emma por seus desejos (Mme Bovary), de Anna Karenina…

Nessas histórias, o arrebatamento é total. O chão dos personagens se dissolve letra a letra, página a página, roubando o ar do leitor.

Não por acaso, a palavra Paixão deriva do martírio de Cristo, e difere do amor principalmente pelo sofrimento, pela irracionalidade que acomete os apaixonados.

É pela idealização, por nossa capacidade de atribuir ao outro as qualidades da perfeição, que a paixão acaba sufocando o amor, dominando corações e cegando suas vítimas. O apaixonado não consegue existir sem o objeto de sua paixão.

Na mitologia, assim como nas lendas medievais (muitas das quais são simples releitura do mesmo tema, como Eros e Psique e A Bela e Fera, por exemplo) paixão e amor se confundem, como se o aspecto doentio desse amor despossuído fosse um mal da modernidade. Aliás, Regina Navarro Lins, autora de A Cama na Varanda, diz com muita segurança que o amor romântico surgiu apenas no século XIII.

Ulisses, que se amarra ao mastro do navio para não sucumbir às sereias, que resiste aos encantamentos de Circe para voltar à sua Penélope, é apenas um devotado e obstinado marido.

Helena, que incendiou a Grécia ao ceder à paixão por Páris, nem mereceu um relato detalhado sobre os seus sentimentos. Entrou para a história como coadjuvante (quase figurante), a reboque de personagens muito mais densos, como Aquiles, Heitor, Ulisses, Agamenon e muitos outros, inclusive um cavalo de pau.

O mais impressionante da Paixão é que o apaixonado transfere ao outro a responsabilidade por sua felicidade, desconhecendo, ou pouco se importando com esse outro e com o que ele sente de fato. O apaixonado toma posse o objeto de seu “desejo” e faz dele seu paraíso ou seu inferno. Ou ambos.

Isso é o que diz explicitamente, por exemplo, a letra de Vambora, de Adriana Calcanhoto: “Entre por essa porta agora / e diga que me adora / você tem meia hora / pra mudar a minha vida”.

Como não existe antagonismo maior do que as idas e vindas de uma alma apaixonada, esse “Gigante da Alma”, como definiu Mira y Lopes, é um dos principais temas da literatura e das artes.

Meus campeões, insisto, são Stendhal, Flaubert e Tolstói. Nada se compara ao descaminho da Sra. de Rênal, de Carlos Bovary e de Anna Karenina. O final de Mme. Bovary é de tirar o fôlego, e eu arrisco dizer que inspirou James Joyce no final de Os Mortos, quando desnuda a súbita paixão de Gabriel por Gretta.

Mas há muitos outros casais apaixonados e apaixonantes, principalmente na poesia, na ópera e no cinema, onde a emoção sempre desafia a razão. Aliás, o cinema é o território das grandes paixões, como Sangue e Areia Dr. Jivago (obras literárias) por exemplo.

Da literatura cabe citar O Guarani (José de Alencar), Dom Casmurro (Machado de Assis), Orgulho e Preconceito (Jane Austen). A lista é enorme…

Na vida real muitos famosos viveram tórridas paixões, dessas que fariam a arte ruborizar e parecer uma cópia ruim da realidade. A escritora espanhola Rosa Montero publicou um delicioso livro sobre esses casais, chamado Paixões - amores e desamores que mudaram a história. Vai de Marco Antônio e Cleópatra a John Lennon e Yoko Ono, passando por Liz e Robert Taylor, Evita e Juan Perón e Oscar Wilde e o lorde Alfred Douglas.

Enfim, Paixão é apenas - e tão simplesmente - um eterno e delicioso tormento.

Para você pensar o dia dos namorados, fique com esses versos finais de Eros e Psique de Fernando Pessoa:

 

“A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

 

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

 

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

 

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora,

 

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.”

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