Viagens


Chovia.

O frio em São Paulo doía nos ossos e dava uma sensação estranha, prenúncio de medo e desejo. Um chefe e sua Secretária preparavam-se para uma noite de vinhos e tangos. Seria o dia da revelação?

Quem melhor para se ter um caso de amor do que um chefe? Claro, “aquele” chefe!!! Tem-se mais tempo com ele do que com a família, priva-se das suas intimidades estando ao seu lado nas alegrias e tristezas; supera-se seu mau humor e rabugices, procura-se entendê-lo e justificar, quase sempre, os seus erros. Quando se tem orgulho e admiração por um chefe, nele depositamos toda a nossa confiança.

Foi assim que uma Secretária, livre e eficiente, que por muitos anos mantinha um amor secreto pelo chefe, caiu nas garras do amor impossível. Trabalhavam viajando e, nesse tempo, evitava sair com ele à noite, recusava convites para jantares, cinemas e teatros depois do trabalho. E assim foi se esquivando do confronto derradeiro.

Mas o que fazer quando todos os dias viajavam juntos no mesmo carro, ou em aviões, hospedavam-se nos mesmos hotéis em quartos vizinhos? Todas as tarefas eram compartilhadas, inclusive as refeições. Não deixavam de se ver durante os dias. E o amor ia crescendo.

Ela preservava seu segredo e para ninguém abria seu coração. Ele nem desconfiava! A Secretária sabia representar muito bem. Entretanto, imaginava que um dia esse segredo podia ser revelado e isso a amedrontava, pois precisava daquele emprego e amava o que fazia!!! Não dava chance e nem se arriscava a ser despedida.

À noite, quando iam para programas diferentes, chegando de volta ao hotel, tinham que se falar, quando não era para uma reunião nos seus quartos, curtindo um “charutinho”, paixão de ambos, era com uma convocação ao bar do hotel para planejar o dia seguinte.

Ela sofria com esse amor platônico, ao mesmo tempo, se alimentava da alegria do amor silencioso, só dela, uma aventura sedutora, que a fazia mais bonita e mais jovem. Parecia mais o conto da Clarice Lispector “ Felicidade Clandestina”. Ela sentia a mesma satisfação que, no conto, a menina pobre sentia ao desejar o livro que não tinha em suas mãos. Essa paixão era a garantia de aperfeiçoamento constante e busca maior de competência no trabalho.

Todos os dias, quando retornavam ao hotel, no carro, ele fazia convites para jantar ou tomar um drinque, pois se sentia sozinho longe da sua casa e da sua família. Ela tirava, como um passe de mágica, uma saída da manga. Dizia sempre que estava convidada por amigos para jantar, ou para ir ao cinema, ou ao teatro, e com essas mentiras, rapidamente se livrava das tentações. Ele nunca desconfiou.

Um dia, em São Paulo, ao voltarem de carro para o hotel, a chuva e o frio cortavam a alma!!!

O frio convidava para um vinho e uma comidinha gostosa, em algum lugar especial. E foi esse, exatamente o convite que ele lhe fez. Dessa vez ela não teve saída, porque com o trânsito infernal que pegaram na estrada ficaria muito tarde para aceitar qualquer convite de amigos. Foi se arriscar, sabendo de antemão que vinho ela não podia beber, pois não havia bebida pior para tirar dela qualquer revelação. Mas não deu tempo. Ele pediu a carta de vinhos e sugeriu um dos melhores vinhos que ela já havia experimentado na vida. Começaram a beber esperando “a massa da casa”. Ao fundo, compondo o cenário romântico da noite, um som de um bandoneón argentino se aproximava em nossa direção como se estivesse abrindo os caminhos para o romance. Ela, depois da segunda taça de vinho, começou a falar da sua vida íntima, seus amores, e o vinho foi fazendo efeito, foi tomando conta do seu corpo, um tremor nas pernas, uma fala mole e apaixonada, suas amarras totalmente liberadas. Chegara ao clímax!!! Dessa vez ela se sentia livre, totalmente irresponsável, entregue aos desígnios do demônio.

Quando finalmente decidiu revelar seu secreto amor, Ele, seu chefe, começou a passar mal, a suar frio e ficou branco como um bloco de neve. Ela perplexa ficou sem ação. Ele parecia que ia desmaiar. Ela colocou-o no taxi mais próximo e ele foi para o hotel, deixando-a, enquanto estava sob o efeito do vinho, com uma sensação de perda.

Ao invés de ir para o hotel, ela foi para casa de uns amigos desabafar as mágoas de uma frustração, de uma revelação que poderia mudar a sua vida.

Contou tudo aos amigos, que felizes com o desfecho da história, disseram:

- “ Que bom!!! Melhor ter sido assim, porque “onde se ganha o pão, não se come a carne”!!!

E até hoje ele, o chefe, nem desconfia que isso tudo aconteceu com essa Secretária eficiente!!!

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