Pra não dizer que não falei de flores

 

Quando todos os olhos estão voltados para perucas e carecas togadas que, entre truculentas e irônicas excelências verbais, discutem sobre a pertinência de se levar a realidade ao quimérico tribunal eleitoral, inominável absurdo, surge do passado uma questão superveniente.

Não me refiro a qualquer das inúmeras declarações do midiático presidente da Corte, dentro e fora dos autos, nas quais o relator vem amparando as suas teses contra o controverso opositor atual.

Por sinal, o parêntese que ora abro trata de um curioso caso de Kramer x Kramer composto por nomes de batismo, Gilmar x Gilmar, separados apenas pelas conveniências que as ironias do tempo não poupam ao destino.

E fecho o invisível sinal gráfico refrescando a memória dos leitores, ao destacar que a causa não foi apenas interposta por ação de tucanos, fato para o qual todos são advertidos a cada reportagem sobre o julgamento da chapa quente, mas que o processo fugiu do arquivo certo, que sua instrução escapou da gaveta fatal por obra e graça não do Espírito Santo, mas de um natural do Mato Grosso.

Enquanto o espetáculo reserva mais atos travestidos de sessões plenárias, os jatinhos seguem mostrando que no Brasil havia e ainda há algo no ar além dos aviões de carreira.

Mesmo com o sugestivo prefixo PR JBS, Temer, em janeiro de 2011, embarcou em mais uma furada, ainda que, felizmente, tal furo não tivesse o condão de comprometer a fuselagem de tal canoa aérea. A favor do então estreante no cargo decorativo do Planalto, diga-se que o estado do Paraná ainda não era perigoso para políticos. E que, no quesito generosidade com o chapéu subtraído, a JBS ainda perdia de goleada de um compacto conjunto de empreiteiras.   

Enquanto Lula tinha a perfeita noção de que voava nas asas das palestras da Odebrecht, milhares de milhas premiadas, e Dilma dispunha do Aerolula, naturalmente sem o exclusivo serviço de bordo de Rose, Temer não sabia a quem pertencia a aeronave na qual embarcou com sua excelentíssima esposa para o sul da Bahia.

Ainda um vice acima de qualquer suspeita, sem reclamações públicas em latim, um ciumento marido, por telefone, subiu nas tamancas antes de alçar voo. O sem FAB soltou o verbo em bom português pra cima do campeão nacional de fanfarronices.

- ... Não me venha com desculpas destituídas de nexo causal, de que teria partido de sua amável genitora a gentileza da cabine decorada. Você não passa de um grande falastrão, como todos sabê-lo-ão no futuro. Você sabia que Marcela ia... Não, isso não é uma mesóclise, apesar da incomparável beleza fonética que a conjugação em terceira pessoa proporciona... Sim, por que enfeitá-lo-ia de flores, não fosse para agradar o meu avião? Saiba que enfrentá-lo-ei com todas as armas que o governo dispõe. A menos que... bem, indicar-lhe-ei um assessor com plenos poderes.

Portanto, não foi caminhando e muito menos seguindo a canção interpretada pelos sertanejos universitários que Temer falou de flores. E muito menos eu.

Please reload