Aves de mau agouro


Macambúzio.

Termo machadiano que bem definia meu abalado estado de ânimo com a Novela Brasiliense, que longe de encontrar um desfecho, a cada capítulo acrescenta novos e inusitados ingredientes, todos de péssima qualidade, prolongando a agonia e dando sobrevida à vilania.

Como disse Jung sobre o Ulisses de Joyce, a cada dia “se abre uma nova expectativa que não se realiza […] e “a espera é a forma como o diabo tortura os mortos no inferno.”

Que não me entendam errado.

Não me importa a agonia do governo Temer, que anda aos sustos, assombrado com vultos no porão, sussurros do passado, lembrancinhas esquecidas, enfim, pisando no fio da navalha.

Pelo contrário. Não há mais condições de sustentação para esse governo.

A agonia que me abate é a de todos nós brasileiros, que merecemos e gostaríamos de ter um País minimamente decente, com governantes, juízes e parlamentares pelo menos com vergonha na cara.

Essa é a característica que falta à grande maioria de nossos homens públicos.

Como um dia teve o deputado Roberto Jefferson, ao assumir os seus erros perante o Congresso em rede nacional de televisão.

Desde o governo Colllor - que, aliás, mergulhou na penumbra - minha simpatia pelo deputado petebista foi comprometida. Abraçado com Renan Calheiros, ele assumiu a missão de “Tropa de Choque” do paladino alagoano, articulando as manobras que visavam apenas impedir sua queda.

Quinze anos depois, na raiz do mensalão estava a briga comezinha sobre três mil reais embolsados nos Correios, filmados e divulgados, no que Roberto Jefferson denunciou como uma “armação” de seus aliados (o PT), no esquema de apropriação da coisa pública.

Não podemos esquecer que, antes de azedar de vez as relações e levar os “brigões” para a cadeia, tanto Lula disse que “daria um cheque em branco ao deputado”, quanto Jefferson inocentou Lula “um homem honesto”, deslocando para o José Dirceu o mando da rapinagem.

Quando saiu da prisão, fiz questão de assistir à sua entrevista ao Roda Viva. Me surpreendeu.

- Taí um homem de caráter, pensei.

Pois ontem o ex-deputado me surpreendeu novamente.

Para o mal.

Confirmou aquela máxima de que de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada.

Resta esperar que o apoio de Roberto Jefferson ao governo Temer seja novamente um inequívoco sinal de que este seja apenas um cadáver insepulto. Como foram os dois outros anteriores.

Que pena, Deputado, que você não traiu suas origens.

#governoTemer #RobertoJeferson