Descobri que sim. E não falo do amor fraterno. Falo do romântico, dos apaixonados, aquele que faz o coração acelerar, as bochechas pegarem fogo, o tempo parar. Tipo Romeu e Julieta, John e Yoko, Cleópatra e Marco Antônio. Só que não precisa doer, não precisa de choro, nem de estresse. O amor deve ser aquele refúgio de tranquilidade, a volta pra casa depois de longa viagem, balanço vagaroso na rede, calmaria em mar revolto. Sem cobranças, sem julgamentos, sem medos. O amor não é um turbilhão de brigas, o que vem junto dele é que traz as paranoias: o passado de cada um, a vida fora do relacionamento, as individualidades, a intolerância somada à incompreensão, medo, insegurança e egoísmo. São como latinhas barulhentas puxadas atrás do carro da lua de mel.

Descobri que Cazuza estava certo, que é uma sorte ter um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. Queria esta sorte e este sabor pra mim. Mas não o limão azedo, ou a acidez do abacaxi. Só o doce, mesmo aquele mais suave, adocicado com uma pitadinha de sal. Quem sabe aí está o equilíbrio. Aquela mistura de coisas distintas que, juntas, se transformam em algo muito bom. A liga perfeita do certo e do errado, a fronteira invisível que marca o elo entre duas pessoas. Um mistério, isso. Sem previsão e avisos, simplesmente é.

Procurei, confesso. Me enganei mais do que queria. Me decepcionei incontáveis vezes. Até comigo mesma. Pensei que, talvez, meu espírito livre e contestador não estivesse pronto para o amor. Pois que o amor é também prisão. Amamos e queremos ficar ali, amarrados ao ser amado. Ou não. Queremos correr livres, voar, proclamar o amor, e brindar o enlace com doses extras de uma bebida qualquer.

Pensei ainda: amor é uma questão de talento. É preciso ter o dom. E se empenhar em busca de aperfeiçoá-lo, sempre. Como aquela frágil plantinha que – dizem – deve ser regada todo santo dia. Mas é preciso a dose certa de água, para não afogá-la, ou deixá-la seca demais. Ai, Meu Deus, que coisa mais difícil. Não me avisaram que o amor era tão complicado. E talvez não seja, nós é que somos. Somos exigentes, queremos sempre o melhor. Senão, pra que? Acho que não tenho talento...

Pensei mais: para amar e conviver com alguém, primeiro precisaria aprender a me amar e conviver comigo mesma. Passei a me observar. E é um tanto quanto interessante observar a si mesmo. A gente passa a se ver com outros olhos. Os olhos do outro. E é tão bonito se surpreender consigo mesma a cada nova descoberta. É tão agradável contar os passos do elevador até a porta de casa sem me sentir uma louca. Tão gostoso dançar feito louca no meio da festa ignorando se alguém está olhando. Só pelo prazer de ser. Eu mesma.

Convivendo comigo comecei a aceitar que não sou forte o suficiente para carregar as compras do mercado sozinha pra casa, mas que posso ser forte o bastante pra ver o amor da minha vida passar na minha frente com outra pessoa. Paradoxo total.

Estou aprendendo a conviver comigo mesma, com essa necessidade de expressão que tenho, com a necessidade de ser amada, de ver o mar – mesmo não gostando de praia! - de ser humano. E ser, humana.

Descobri que aprender a conviver comigo facilita o meu convívio com as outras pessoas! Estou aprendendo tanto que até acho graça quando caio da escada do Metrô... agora eu rio de mim. E vivo feliz assim. Mas, e o amor?

...me descobrindo descobri que, talvez, no momento certo, ou errado, ou em qualquer instante, não sei bem; a minha loucura, só minha, sem rótulos ou sobrenomes, apenas esbarre no amor tranquilo de fruta mordida e que, assim como eu, se pergunta diariamente: o amor, existe?

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