Testa larga

Houve um tempo, também terrível pela escassez de trabalho, em que ladrões de bicicleta podiam ensejar magníficas obras. Sorte nossa que Vittorio de Sica não viveu o neorrealismo relâmpago do twitter e do facebook.

O recente episódio do ladrão que teve a testa tatuada por causa do roubo de uma bicicleta deu o que falar. E, sobretudo, escrever, limitados ou não pelos caracteres permitidos no espaço escolhido pelo especialista. E não me refiro, neste parágrafo específico, à testa em si, mas à cabeça do julgador, quando se sabe que em cada cabeça há uma sentença.

Sem entrar no mérito do castigo, visto que já há vasta literatura instantânea nas redes sociais no que tange à justiça pelas próprias biqueiras, já incluídas as agulhas de traço e pintura, bem como as modernas remoções de tatuagem a laser, imagino se a sentença e a imediata execução da pena fossem aplicadas a Cabral.

Por sorte, Cabral está ficando careca. Nem falo do compulsório cabelo máquina 2, raspado no complexo penitenciário de Bangu, até porque o ex-governador, ao contrário de Eike, não parece ter complexos outros por causa da calvície acentuada.

Recolhido às novíssimas instalações de Benfica, bem fica o exagerado criminoso, disposto a cumprir, com o devido conforto e toda segurança, as penas que lhe serão paulatinamente impostas. Se não chega a ser a Brastemp de um resort em Mangaratiba, seu moderno puxadinho no velho batalhão da PM dá bem para o gasto.

Sabendo que na vida nem tudo são votos, joias, dólares, euros, helicópteros, guardanapos, propinas, jatinhos, cúmplices, adrianas ou mágoas, Cabral, ao receber o voucher de Moro, documento que cobre a sua primeira reserva para uma temporada gratuita de 14 anos, colhe os frutos do investimento da máquina governamental que, ao somar forças com comparsas federais e municipais, enfiou fundo o seu Pezão na melhoria dos presídios.

Portanto, meritíssimo leitor, imagine que você viesse andando de bicicleta pelo Maracanã em 2013, ali pela UERJ, e aparecesse Cabral, com a mão armada pelos padrões FIFA da Odebrecht, exigindo que você entregasse, além da sua bike, quase tudo que vinha guardado no bolso.

Ou estivesse em Itaboraí, abrindo o seu promissor negócio para crescer à sombra do complexo petroquímico do COMPERJ, e viesse o meliante com seu bando federal e regional para tomar a sua carteira e só lhe deixar dívidas e um nome sujo na praça.

Ou pedalasse pelo Arco Metropolitano e surgisse a quadrilha disposta a qualquer coisa para manter o poder em todas as comunidades, pacificadas de mentira ou não. Ou penasse em um hospital, ou numa escola, ou no DETRAN. O fato é que onde você fosse ou estivesse, Cabral estaria lá com sua gangue.

Haja testa, haja careca, haja pele para tatuar o exagerado ladrão, bandido que se revelou um tremendo vacilão.

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