Jantar Ultrassecreto

Desde março de 2016, a conspiração golpista que arrancaria o coração valente do corpo possuído pela negação ao criador, bem como congelaria seus erráticos miolos pela fatal insubordinação ao chefe, foi mantida no mais absoluto sigilo. Apenas no último dia 19 de junho, 15 meses após a sentença de morte política à estelionatária eleitoral, a cena do planejamento da execução a pedaladas no matadouro da Câmara saiu do frigorífico mental em que fora guardada, ele também trancado.

Diante da notória falta de sentimentos por parte do delator sem prêmios do MP, qual seria o motivo dessa suposta catarse escrita? Dinheiro interrompido, vingança ao carniceiro traidor ou uma bela amostra grátis do que seria a publicação de suas memórias?

O fato é que, até aqui, suas eventuais contribuições aos autos foram desprezadas, talvez porque o denunciante deva ser considerado um predador que é topo da cadeia alimentar, espécie de Cabral do legislativo federal.

Sem necessidade de exames grafotécnicos ou carimbos da inspeção sanitária, por linhas de próprio punho, ainda não de todo destrinchadas, soubemos que a cabeça de vento estocado com laquê foi entregue em uma bandeja de prata, em um ritual de fazer inveja aos mais exigentes canibais do pedaço, em evidência desde a harmonização das mais selecionadas uvas com o inigualável paladar da gaivota Friboi, que hoje sobrevoa o triplex do Guarujá.

Por essas e outras ainda ocultas, o excelente Jantar Secreto preparado e servido pelo escritor Raphael Montes aos seus famintos leitores em 2016 foi suplantado não em qualidade literária, mas em capacidade de discrição dos comensais Cunha, Lula e Joesley.

Apesar do meu apetite para as inúmeras coincidências macabras entre as respectivas tramas, fiquem tranquilos. Não cometerei spoiler nem que o símbolo do agronegócio tussa. Já em relação à tranquilidade individual, pública ou institucional, vocês podem tirar o cavalo da chuva, mesmo que o boiadeiro caia do conglomerado.    

Apesar das madames presentes, como deu a entender o único encarcerado e condenado do seleto grupo, ao lamentar a exposição da família ao anfitrião marginal, o cardápio do impeachment foi reservado, top secret. Talvez só Putin soubesse do ménage-à-trois masculino organizado pelo Safadão a pedido do safadíssimo, porém o voyeur estava mais interessado nos segredos mais íntimos de uma presidenta virtual, sua então eleita, que jamais seria eleita.

De fato ocorreu aquilo que acontece em qualquer churrasco ocidental, Friboi ou não: as madames, duas delas jornalistas aposentadas sem INSS, sentaram-se em outra mesa para fofocar e falar das modas no revisitado circuito Elizabeth Arden: Nova York, Paris, Milão, Londres e São Bernardo. Atibaia out!

Portanto, vislumbro outro best-seller a partir de confissões oriundas dessa carnificina-degustação. Uma vez publicadas fora de Época, há de mostrar o consumo indireto de milhões de seres humanos, fatiados em sangrentos capítulos ou assados em fascículos eletrizantes. Uma vez no forno, o Jantar Ultrassecreto deverá substituir a carne de gaivota pela de tucanos selecionados e coxinhas douradas ao ponto, além da mortadela gourmet, iguaria bem mais consistente que a tradicional, conservada em botox.

Com o conhecimento adquirido no açougue goiano do pai, Joesley imitou a personagem Cora antes mesmo de o livro de Raphael ser publicado. E mesmo sem conhecer toda trama de O Jantar Ultrassecreto, aposto que o culpado será Guido, o mordomo, que já apareceu em outros capítulos, mas anda sumido.

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