A hora de cuidar dos macacos

Em nome da segurança e da qualidade dos serviços públicos, a metafórica sirene está tocando não só no Rio de Janeiro, mas em todo País, razão pela qual peço vênia para tratar de um assunto provinciano, paroquial, mas que foi objeto de grande cobertura televisiva por ter ocorrido no quintal da Globo, e não na Record.

Em tempos de vaca não reconhecer bezerro, quando uma emergência de ordem climática é omitida pela autoridade responsável pelo alerta às comunidades, com o intuito de não causar pânico na população, é hora de dar nome aos bois e às suas fêmeas de presépio.

Nadando de braçada nos subdimensionados e submersos piscinões Tone do Paes, que ninguém culpe o Pastor Crivella pelos estragos causados pelo dilúvio na cidade. Ele não foi avisado pelo Criador, como foi Noé. Do contrário, a outrora pujante indústria naval carioca teria sido reativada pelo fiel seguidor do personagem bíblico. Além do mais, todos sabem que a arca universal, que flutua sem impostos pelo mar de lama, é capitaneada por titio Edir.

Foram águas de junho que encerraram o outono, em vez das tradicionais de março, que fecham o verão, como quer a empírica Meteorologia Popular Brasileira. Como dar ouvidos à profana MPB e seu maior representante na Terra, cuja alma elegeu o alagado Jardim Botânico como éden, mas que acabou ilhado no aeroporto com o Governador?

Como, se o incansável globe trotter é prefeito?

Afinal, o programa de governo do missionário era tão claro como sucinto; chegara a hora de cuidar das pessoas. Portanto, os cobrados investimentos nas obras de macro e microdrenagem não procedem. Limpeza de bueiros? Talvez apenas para levar para o seu rebanho, por módicos 10% do líquido, aqueles irmãos que estão na sarjeta, naquela água.

Como reclamar da interrupção das obras de desvio do rio Joana, que aliviaria o Canal do Mangue? Se ainda fosse uma obra pia para tirar uma desviada Joana do Mangue, aí, sim, estaria inserida em seu programa de governo. A retomada da canalização para a Baía de Guanabara constituiria não mais que estelionato eleitoral.  

Sem jamais recorrer à intermediação do padroeiro São Sebastião, Crivella vai cuidando das pessoas cumprindo a promessa de um governo laico, com total liberdade religiosa. E foram as águas, as mesmas que uniram em comunhão os rios, lagoas e praias da Zona Oeste, que provaram a fidelidade à plataforma de campanha. Creiam que apareceu um enorme jacaré na Macumba, verdadeiro milagre, justamente na encruzilhada de loteamentos e gabaritos, onde o meio-ambiente foi tão agredido.

Aos críticos mais afoitos e aos eleitores ansiosos, peço que esperem a candidatura do pastor à reeleição, quando, aí sim, será a hora de cuidar dos animais, ocasião em que a limpeza e a dragagem do Rio dos Macacos, que inundou o Jardim Botânico do autor de Águas de Março, poderá entrar no orçamento municipal.

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