Gandhi - 1982

“Gandhi”, pela espetacular riqueza das tomadas, poderia ser um filme de David Lean, o eterno mestre que nos deixou de legado um “Lawrence da Arabia” entre outras obras primas.

Mas, na verdade, quem dirigiu “Gandhi” foi outro inglês, Richard Attenborough, um talentoso e bissexto cineasta que joga nas onze, pois atua, produz, escreve e até compõe trilhas. Entre seus filmes, além de “Ghandi” podemos citar os excelentes “Uma ponte longe demais” e “Chaplin”.

191 minutos de “Gandhi” envolvem, sem nenhum excesso, o espectador na trajetória desta verdadeira lenda da movimentada história do século XX, temperando ternura e sutilezas num ambiente dramático e verdadeiro.

O filme harmoniza todos os ingredientes para dar certo. Um roteiro enxuto de John Briley, até então um tanto desconhecido, que mergulha fundo nos fatos históricos e o faz com elegante reverência ao personagem que mudou os rumos de uma Índia colonial com sua estratégia de paz, com a sua paciência quase sagrada e com devoção extrema à causa.

Gandhi é um dos personagens mais importantes e controvertidos do século XX, e Ben Kingsley é Gandhi. Mais do que atuar, Kingsley parece tomado por um transe que nos convence de que estamos diante do personagem. Sua atuação é maravilhosa, arrebatadora, e valeu um dos Oscars que o filme conquistou.

Há correntes de pensamento que questionam a importância do líder pacifista na história da Índia, até porque julgam uma certa falta de cintura em algumas situações fundamentais e também, na visão desses críticos, pelo seu exagerado culto ao automartírio, que pouco teria contribuído para o desenrolar da história indiana. Mas a verdade é que o filme não pretende polemizar essa questão e conduz a sua narrativa desde a época em que o grande Mohandas nem imaginava que seria o grande arquiteto da India moderna e independente, e viria a ser chamado de Mahatma (alma pura em sânscrito).

O jovem advogado come o pão que o diabo amassou na África do Sul, no rigor do apartheid, e é lá que começa a conclamar seus concidadãos hindus a reclamar pacificamente por direitos civis. De volta à India, colonizada pela arrogância do Império Britânico, dá continuidade à sua luta. Não havia mais retorno para aquilo que começara.

E como um predestinado, Gandhi vai impondo a sua afirmativa simplicidade, mas ao mesmo tempo sua forte determinação de libertar uma nação oprimida, usando elementos quase santos como a verdade (satya) e a não-violência (ahimsa). Quanta diferença entre os heróis iluminados como Gandhi e de alguns líderes satanizados que transitam hoje no conturbado continente asiático.

O filme de Attenborough se apoia no excelente trabalho fotográfico do também vencedor do Oscar Billy Williams ( Women in Love, On golden Pound), em parceria com Ronnie Taylor para documentar um país pobre, ultra povoado, com baixa alfabetização, etnias diversas, castas, contrastes absurdos, mas com uma aura de sabedoria que emana em algum lugar, e que, de alguma forma, nos comove. Tudo isso era o desafio do pacificador de pele escura e traços franzinos que usava o tear para fazer suas reflexões, e também mostrar a desnecessária dependência da indústria têxtil inglesa.

A qualquer reação de violência entre as etnias que compunham o sub-continente indiano, sua resposta era o jejum para mostrar que não precisaria mais de forças caso a sua luta tivesse sido em vão.

A trilha de Ravi Shankar não poderia ser mais adequada para compor o clima desse grande épico inglês que merece ser visto ou revisto. Fica a dica.

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