As provas ilícitas

O que é uma prova ilícita? No meu tempo, era aquela em que determinado professor desconfiava e comprovava cola, o que representava um zero, uma suspensão ou ambas as punições, coisa que, com o passar dos (muitos) anos, alcançaria um nível de sofisticação formidável. Vemos quadrilhas atuando para burlarem o Enem e até concursos públicos, com aparelhos camuflados ligados a especialistas recrutados pelas organizações criminosas. Imaginem os futuros clientes gabaritando as questões das provas para o MP. Coisa de primeiro mundo. Chupa, Noruega!

Entretanto, a prova ilícita do nosso cotidiano passou a ser outra. No último dia antes do recesso do Judiciário, justamente quando Loures e Aécio foram contemplados com mimos eletrônicos e inúmeras bondades, entre legislativas e de ordem familiar, passou despercebida pela imprensa uma decisão monocrática de mérito, puro demérito, que só vem corroborar a existência de um acordão que se consubstancia a cada dia, a olhos vistos na prova do colega.

Pois é, parecendo antecipação do descanso de inverno, fisgaram várias provas ilícitas na operação História de Pescador, que investigava a superintendência do Ministério da Pesca no Pará. Afinal, se Zé Dirceu, que garantiu mais um mês de férias fora das grades, está solto, tudo é permitido, ainda mais para quem tem foro privilegiado. E mais ainda para quem é ex-mulher de Barbalho, um dos proprietários do piscoso estado amazônico, e um dos elementos que mais atuam em favor da ampla concertação contra o conserto do país.

Como qualquer político conhece a lei Pita, a que reza no seu parágrafo único que ex-esposa é para sempre, cargo vitalício com todos os direitos e vontades satisfeitas, a deputada pleiteou a extensão da prerrogativa de foro à assessora que trabalhava em seu gabinete. As provas ali colhidas, por serem ilícitas, devem ser imediatamente eliminadas do processo, sacramentou o ministro indicado por Temer para ajudar a estancar a sangria. Mas o que fazer com elas? Decerto irá na mesma linha do telefonema que introduziria o “Bessias” ao nosso vasto e inigualável folclore político.  

Como não frequento escola faz tempo, apenas desconfio que, hoje em dia, seja considerado assédio moral um professor tomar a prova de um aluno surpreendido colando, mesmo que um eventual colinho, e não colinha, coisa de gênero, às vezes engane.

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