A árvore do amor

O filme é ambientado na China em plena revolução cultural maoísta e conta a história de uma jovem, cujo pai está preso por se opor ao regime, e que vai para o campo para seu processo de reeducação com os camponeses. A família depende muito do seu desempenho e comportamento para sobreviver naqueles tempos difíceis. Lá a jovem professorinha Jing  conhece um jovem geólogo e mantém com ele uma relação de contido encantamento.  Esta é a chave do filme que nos emociona quadro a quadro numa sucessão de delicadezas e sutilezas de extraordinária beleza.
A formação reprimida onde tudo se faz em nome da coletividade e onde não há espaço para a vida privada, vê florescer uma inocência arrebatada de poesia e significados. Jing e Sun vivem uma paixão sem beijos e sem sexo, mas tão intensa e verdadeira como uma fábula. Poderia ser uma fábula de Capra, Chaplin ou uma tragédia de Shakespeare com os olhinhos puxados dos chinesinhos e um colorido muito filtrado que produz uma imagem monocromática com poucos contrastes, um quadro perfeito da vida proposta pelo regime maoísta. A diferença é que em vez da dor e do martírio há uma doação verdadeira, uma crença profunda, uma  alegria qualquer naquele exercício de não ter quase nada, mas ,de alguma forma, ser alguma coisa.
O mais extraordinário neste  filme de 2010 de Zhang Yimou (Lanternas vermelhas, O clã das adagas voadoras) é a forma sublime de retratar o amor e a descoberta, como na cena em que Jing evita dar a mão para Sun, ao atravessar o leito do rio, por pura timidez, e ele lhe oferece um graveto para que ele possa puxá-la sem contato físico. Aos poucos, na travessia, as mãos se aproximam e se tocam, e ambos estampam no rosto uma silenciosa conquista.  Em outro trecho do filme eles se despedem, e estando separados pelo rio, simulam um abraço tão intenso e tão puxado do fundo da alma que não há quem fique indiferente à dor daquela despedida.
Um filme de pequenos gestos, de ritmo suave e de interpretações minimalistas, que deixa sua marca para sempre em cada um de nós. Quando o filme termina a gente fica estatelado na poltrona por um tempo, ainda impactado pela emoção, talvez com uma lágrima escorrendo no rosto, suave como a lágrima de Jing . 

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