Solaris quadradus

Com tantos comentaristas políticos e articulistas dispostos a meterem a colher de pedreiro na sentença de primeira instância, que ainda pode ser reformada, poucos se deram ao trabalho de analisar a reforma em si, a do triplex, sob a perspectiva das supostas intenções do proprietário, que claramente preferia o sítio pertencente aos amiguinhos de seu filho. Isso porque qualquer marido que se preza sabe que, do ponto vista objetivo, da rede na varanda ao cantinho da geladeira, quem manda em reforma é mulher.

Creio que esse foi o grande erro da defesa do ex-presidente; querer negar as evidências inerentes ao matrimônio, sobretudo a uma união em notória crise, quando o mais verossímil seria apelar à flagrante força dos costumes conjugais e, em paralelo, lançar mão do álibi de Atibaia, cujo processo vem mais lento, nadando como os cisnes do laguinho. Em comum a ambas as obras, é bem verdade que há a cozinha Kitchens, mas as duas frentes seriam aceitáveis pela escala que, em última análise, diminuiria o preço relativo da corrupção, pragmatismo aplicado à construção civil que justificaria os meios pelos elevados padrões éticos do partido dos trabalhadores.

Pois, pela primeira vez, o Todo Poderoso que nada sabe e nada vê, sábio que partiu para a ignorância como frequente parâmetro de defesa, talvez ele estivesse inocente. O mártir teria entrado no Solaris de bobeira, como Pilatos no Credo, tanto que se deixou fotografar com os hipotéticos corruptores, ao contrário daquele que lavou as mãos, e não as habituais, sujas de argamassa.

O condenado às intermináveis DRs de São Bernardo tudo fez para agradar a madame, visto que andava sujo como pau de galinheiro por causa de suas escancaradas andanças com a outra oficial. Cabe salientar que, na época, espocavam na imprensa as mais diversas insinuações sobre o tórrido affaire, refrescadas aqui e ali em lascivas agendas internacionais no Aerolula.

Sempre nas nuvens com a sirigaita das agências reguladoras, o galinha teria o perdão negado três vezes antes de o galo cantar. As desculpas só seriam aceitas caso ele se submetesse a todos os seus caprichos imobiliários. Detentores de uma cota de Bancoop, a flexível cooperativa dos bancários da turma de truco, a esposa toparia perdoá-lo se fosse agraciada com um três em um, versão em concreto aparente do aparelho denunciado por Collor, em tempos mais difíceis e românticos. Com os pés no chão, aceitou a oferta alheia, razão da tríplice e indevassável vista para o Atlântico, com panorâmico elevador interno.

Não por acaso, o santo homem foi condenado a 9 anos e meio de cana. Outra cana, não envelhecida em carvalho ou qualquer madeira de lei. Foram 3 anos para cada andar, além de meio de garagem, incluída a lavagem confirmada pelo zelador. Tudo por ter traído o andar de cima, o andar de baixo e, principalmente, o andar na linha com a patroa. Mas, pelo andar da carruagem, tudo ainda será reformado.

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