Quando o amor acaba - A Paulo Mendes Campos

Quando o sacrifício é maior do que o ofício do amor, o amor acaba. O amor acaba quando a moça rola a serra do Rola-Moça, rio acima e rio abaixo sem nada por debaixo e nada rola. E acaba mais ainda quando desaparece o louco perigo de deixar-se lançar no abismo delicioso dessas emoções e de sentir baterem fortes os corações. O amor, que não pede licença para começar, também não pede licença para acabar. O amor acaba ao acaso, no descaso, na desatenção, no desarranjo, nos secos nãos de mãos entrelaçadas que sequer se tocam entre longos silêncios e caçoadas. De repente, o amor acaba. Quando há espera, no equilíbrio instável de sentimentos e ressentimentos, orgulhos feridos e vaidades também, o amor acaba. Entre paradoxos e perplexidades perdido, afastada a cilada da chama da paixão, de dizer sim ou dizer não, do venha a mim e então, o amor acaba. Sem vagidos, ruídos, respostas cínicas ou mímicas, o amor acaba: o olhar não vê e o amor antes cego se torna de verdade cego, nos esgares secos de ódio e de nada, já que nem nojo resta. Quando o amor acaba, nem o vazio dos espaços irrespiráveis preenche o frio dos corpos antes admiráveis. Não se sabe como e porque o amor acaba, sem o desejo triste de voltar, e, no entanto, o amor acaba sem remédio, quando já se somam tantos comos e porquês do mesmo tédio no mesmo cotidiano de farpas insuportáveis: dois farrapos do amor trocam o que foi um dia o mais belo encontro das mais belas risadas amadas pelo licor mais barato do bar; e no fim da espera, quando já não há perguntas, nem respostas, os silêncios sequer falam e as agressões nem ferem como antes, o cigarro se apaga como o amor que acaba. O gelo, esse não derrete as palavras represadas entre gritos sufocados, pois, quando o amor acaba, nem há mais tanta diferença entre desamor e indiferença, entre espera e esperança. Quando o amor acaba, já não há paradas nem revoluções, nem “fora ninguéns”; não há trens em descarrilo, caminhos errantes ou estações vagantes, nem paralelas de encontros e desencontros lá no infinito do nunca mais. E, entretanto, o amor acaba. Sem perfumes, ou madeleines que lembrem instantes, nem canções de ódio bastante daqueles dias infantes. Quando o amor acaba, sem argumento ou momento, restam somente infames calafrios de emoções irreais. O amor acaba quando as portas se fecham sem chaves, revelando segredos de puro desencanto: a fantasia dura da realidade no labirinto escuro do outro. No desespero da dependência, o inimigo vagotônico vagueia ali e aqui e, no eco vazio de vozes dissonantes, se liberta catatônico. As entrelinhas veladas escondem apenas amargos silêncios, essência da violência represada, quando o amor acaba. Quando cansado da preguiça, nem recomeça e nada haja que o impeça, extenuado, o amor acaba. E, quando o amor acaba, nem sobra decepção, pois verdade ou mentira não dão sentido a dois corações ressentidos.

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