Língua presa

Isonomia é uma palavra de pouca utilização no nosso cotidiano familiar, muito pouco falada fora dos sindicatos de servidores públicos, das assembleias de corporações estatais e das salas de audiência da justiça do trabalho. 

“Mamãe, eu também quero duas porções de doce de leite. Se Fulaninho comeu e Beltraninho regalou-se, exijo isonomia.” “Mas acabou, Sicraninho!” “Não interessa, mamãe. Manda o papai trazer mais.” Isso não se ouve nos lares brasileiros, mas representa muito bem o que acontece nos tribunais de todas as instâncias, sempre atentos aos direitos adquiridos e às propaladas isonomias, porém alheios aos orçamentos. 

Em outras palavras, o breve exemplo doméstico resume o que se verifica no âmbito das corporações que mamam nas tetas dos três poderes, ao sugarem o que podem e o que ainda não podem da farinha láctea que determina o seu suculento pirão primeiro.

Portanto, uma vez consagrada a prática no meio jurídico, que constitui um desses poderes, por sinal o que fala mais grosso e por último, eu, um leigo, acostumado apenas ao latim de missa e ao corriqueiro latinório compreendido nas citações dos supremos medalhões, peço vênia para colocar a minha colher em um assunto do Judiciário. Pelo meu modesto ponto de vista, há uma cegueira generalizada no caráter isonômico do que concerne aos pesos e às medidas de restrição à liberdade; que, à revelia da venda da Justiça como um todo, tais lapsos ou pontos cegos saltam aos olhos na área criminal. 

Curiosamente, a operação Lava-jato foi inspirada na similar Mãos Limpas, levada adiante na Itália, e a defesa que venho sugerir aos bambas do Direito poderia ser utilizada para tentar libertar o Italiano. Ou, efeito colateral da petição baseada na isonomia ao pós-Itália, determinar a prisão do seu sósia de crimes, também conhecido no meio da delação premiada como Laticínio. 

Ambos foram ministros de Lula e Dilma; um e outro foram comparsas e intermediários dos Free Boys; embarcaram jabutis em medidas provisórias; operaram no BNDES; pertenceram ao conselho de administração da Petrobras; os dois têm língua presa, mas apenas o Italiano tem o restante do corpo na mesma condição do órgão da fala. Não parece justo. 

Se o pós-itália parece passar os seus incompreensíveis dias de liberdade em uma sala de espera de hospital, o Italiano é médico. Como tal, poderia até mesmo soltar a língua do colega se o princípio da isonomia fosse aplicado no sentido correto, de fora pra dentro da cadeia, com um rápido procedimento. Cirúrgico.

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