O Jornalismo no cinema

Ao rever recentemente “Intrigas de Estado” (State of play) fui mordido por um desejo de correr atrás de alguns filmes importantes cujo pano de fundo é a redação dos jornais. “Intrigas...” é um excelente thriller onde um jornalista veterano da velha impressa é colega de jornal de uma blogueira moderninha, que trabalha a poucos metros de distancia física, mas a léguas de convicções quanto ao uso da informação. Ele é Russel Crowe e ela, a excelente Rachel McAdams que, dirigidos por Kevin MacDonald (que já havia mostrado o que sabe em “O último rei da Escócia”), rendem muito bem num ritmo nervoso e tenso. Um dos bons filmes americanos de 2009.

Comecei a selecionar títulos que abordam o jornalismo, sem preocupação com o meio (se é escrito ou eletrônico) pela minha própria coleção de Dvds. Há exemplos de jornalismo construtivo e também o de usar o poder da informação mandando o escrúpulo às favas.

Histórias que envolvem repórteres, principalmente quando estes assumem um papel investigativo têm rendido muitas vezes bons frutos no cinema. O mais recente exemplo desse tipo de filme é o corajoso “Spotlight: segredos revelados” que centra toda a sua ação em revelar e desmascarar padres pedófilos. Baseado em fatos reais, o filme mostra como a Imprensa pode contribuir para o aprimoramento da sociedade.
O jornalismo pode também servir para roteiros que flertam com a comédia. Um que não pode ser esquecido é “A primeira página ” (The front page) de Billy Wilder com a inesquecível dupla Jack Lemmon e Walter Matthau que já tinham atuado juntos com o mesmo diretor no engraçadíssimo “The Cookies Fortune ”. Lemmon é um repórter “insubstituível” para o chefão Walter Matthau, que não deseja vê-lo fora da redação nem para curtir a sua lua de mel. Na verdade, este filme é uma refilmagem de um clássico de Howard Hawks chamado “Jejum de Amor” (His girl Friday) estrelado por Cary Grant (o repórter) e a estonteante Rosalind Russell (a chefe que não mede consequências para manter o bom profissional por perto). Ambas as versões são deliciosas (o que é raro) e mostram o dia-a-dia frenético de uma redação clássica (ainda com a velha e boa máquina Remington).

Billy Wilder, como de costume, consegue aqui expor o lado mais cruel, mais cínico e mais sem escrúpulos do ser humano, embora aqui a ironia fique na medida certa à construção de uma comédia.
O mesmo Wilder produz outro filme indispensável que no Brasil levou o título de “A montanha dos sete abutres” (do original Ace in the hole). Ao contrário dos exemplos trazidos aqui, de jornalismo de boa índole, temos aqui a face mais cruel da profissão que é a manipulação do ser humano. Tinha que ser de Wilder. Um jornalista da grande imprensa está frustrado com seu ostracismo trabalhando para uma emissora de pouca relevância em Albuquerque, no Novo México, quando vê uma oportunidade de celebrizar-se com a tragédia de um homem preso numa mina. Conforme a audiência vai crescendo, mais o repórter faz de tudo para dificultar o resgate da vítima, inclusive corromper autoridades, tudo para prolongar o imenso circo em que ele é o ator principal. Kirk Douglas está perfeito no papel e, embora seja um filme difícil de encontrar, vale a pena tentar e conferir o que seria o lado do avesso da informação.

Voltando o foco para o jornalismo investigativo com poder de formar opinião e transformar a história, não há como esquecer de um dos episódios mais marcante do século, o caso Watergate.
O famoso caso de espionagem foi a crônica política mais famosa da história da democracia americana e gerou filmes brilhantes ( mais recentemente Frost/ Nixon que revive a entrevista surpreendente que desmascara o ex-presidente), embora o mais devastador e significativo tenha sido “Todos os homens do presidente” ( All the president’s men) que descreve a famosa história dos dois jornalistas do Washington Post, Bob Woodward e Carl Berstein, os principais protagonistas para que o escândalo viesse à tona.
O filme dirigido com sobriedade por Alan J. Pakula não só faz uma bela síntese deste grande momento do jornalismo que sai farejando a verdade, como também envolve a platéia num clima de suspense e inquietação. Dustin Hoffman e Robert Redford vivem os dois corajosos e pertinazes jornalistas e Jason Robards ganha o Oscar de melhor coadjuvante no papel de Ben Bradlee, o editor-chefe que vive atormentado entre a profundidade da notícia e o furo. Este é o eterno conflito na vida das redações. Confiar nas fontes, fazer conexões, sair na frente, evitar os processos por calúnia e difamação, e manter a confiança e a credibilidade dos seus leitores e também dos anunciantes.
Em plena guerra fria, os Estados Unidos vivem uma verdadeira paranóia anti-comunista que culminou no odioso senador Joseph McCarthy, criador de uma engrenagem de caça às bruxas para nenhum ditador botar defeito. O filme “Boa noite, Boa sorte” (Good night, good luck) é sobre um magnífico e corajoso programa com o mesmo título conduzido pelo jornalista Edward Murrow que não se omite em denunciar as absurdas arbitrariedades cometidas pelo senador McCarthy, mesmo sob fortes ameaças de perder patrocinadores e o apoio da própria emissora.
George Clooney dirige e atua, mas o papel de Edward Murrow coube ao excelente David Strathairn. Um filme imperdível com uma fotografia em preto e branco excepcional que serve também para os apreciadores da atmosfera noir matar as saudades. Outro fato que merece destaque é a trilha sonora. Veja o filme e compre o CD, ambos valem a pena.
“O Informante”, (The Insider) é outro belo exemplo de um incansável trabalho de um repórter (Al Pacino) de convencer um biólogo e ex-executivo de uma gigante do tabaco (Russel Crowe) a revelar segredos industriais. Um agente químico, que contribui fortemente para agravar a dependência dos usuários ao fumo, é algo que precisa vir à tona, mas o preço a se pagar pode ser enorme. Neste cenário envolvendo a solidão e o risco do informante, além de processos, ameaças, e a própria insegurança da CBS News ao tocar feridas tão profundas, desenrolam-se cerca de 150 minutos de muita tensão.
Há centenas de títulos com a temática da notícia. Daria um livro e não apenas um artigo no jornal. O próprio Cidadão Kane é um jornalista que se transforma em um magnata e celebrizou Orson Welles como um dos mais importantes cineastas de todos os tempos. Se o interesse é ter uma degustação de como o jornalismo é abordado no cinema, os filmes citados servem para começar a entender a mídia como o verdadeiro quarto poder, com sua capacidade de denunciar, investigar e formar opinião, prestando à sociedade um serviço inestimável, se feito de forma responsável. Os DVDs, compre, alugue ou procure ver na casa de amigos.

Please reload