Ungidos pelo voto

27/07/2017

Políticos deveriam ser pessoas medianas. Não de altura, nem de caráter, mas em todo o resto, como a vela do filtro, ou o coador de café, que retiram os excessos e as impurezas mas não alteram o sabor nem a qualidade do que passa por eles. Acho que este é o sentido das representações populares nas democracias. Os políticos não deveriam se imaginar em outra função que não fosse o papel de filtrar e depurar, sem modificar nada, o povo que o elegeu. Assim, os quase seiscentos congressistas reunidos lá em Brasília seriam uma amostra, uma representação da sociedade.

Seriam. Mas não são.

Por questões que nem cabem aqui (mas cujas características o sociólogo Henry Giroux chama de analfabetismo político), os 513 deputados e 82 senadores que compõem o Poder Legislativo estão longe de representar a sociedade brasileira. Quando muito eles representam um alter ego, um outro eu dos brasileiros, mais próximos de Macunaíma, o clássico herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade.

Talvez porque vivam num universo paralelo chamado Brasília. Ou talvez porque eles façam as leis que nós, mortais, temos que cumprir. Sabe-se lá se não é porque o poder seja realmente um vício, que dissolve o estofo das pessoas e as funde em seus desejos e vontades? Talvez, enfim, seja apenas porque tenhamos exaltado tanto a Democracia, e isso tenha desvirtuado o poder do voto.

Nossos representantes se sentem ungidos pelo voto.

Ungir é um verbo curioso, intimamente ligado à religião. Ungir é cobrir àquele que se toca com uma aura de santidade. Serve para falar da purificação para a vida, no batismo, e para a morte, na extrema unção.

Tem o sentido de sagração, de dar um caráter divino a alguém ou alguma coisa.

Pois é assim que se comportam nossos deputados e senadores: como se o voto os tivessem purificado e tornados sagrados.

Quando se dirigem à população, tentam passar um estofo moral que nem os seus filhos na pré-escola acreditam que têm. Quando conversam entre si, têm sempre uma mãozinha cobrindo a boca. Se movem pelas sobras. Não se importam de entrar sempre pela garagem. Fazem acordos impublicáveis, à esquerda e à direita. Por que será?

Porque deturparam o voto. O voto já não escolhe quem representa o povo, mas aquele que se coloca acima do povo porque representa o povo. É o paradoxo perfeito. De certa forma, questionar o voto é questionar o modelo de representatividade, a própria Democracia. Logo…

Consideram-se inatingíveis. E se protegem ferozmente. Diante de uma nação em estado de choque, confundem o estarrecimento da população com a empulhação de suas meias verdades, de seu jogo trapaceiro, feito em nome do povo.

Passou da hora de fazer essa reforma política. O voto precisa voltar a ser praticado para escolher alguém que nos represente, e não quem se esconda atrás dele para continuar esse jogo de faz de conta, sempre pela porta dos fundos.

Antes que acabe com a Democracia.

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