Casablanca

Depois da publicação do texto sobre as mulheres que tiveram um caso de amor fora do casamento era natural que surgissem dezenas de esquecimentos, o que daria combustível suficiente para diversas continuações, como serão, de resto, todas as tentativas de classificar temas abordados nas telas. No entanto, há esquecimentos imperdoáveis como o de “Casablanca” e fui salvo pelo meu editor Jason Prado que publicou o texto com a foto emblemática do filme romântico mais cultuado da história.
“Casablanca” (1942) não foi pensado por seus realizadores como um filme que seria cultuado para sempre pelo público e pela crítica. De baixo orçamento, um argumento até certo ponto comum, um romance ambientado no Marrocos que, na época, era uma encruzilhada para nazistas, traidores, refugiados e ponto de apoio da Resistência Francesa, certamente daria uma película bem interessante, mas jamais imaginada que se tornaria um ícone do cinema, como realmente acabou acontecendo.
Para se ter uma idéia da sua popularidade, basta consultar o site mais importante do cinema mundial, o IMDB, que o classifica em 13º. Lugar entre os filmes mais apreciados de todos os tempos, segundo a opinião de nada menos que 156 mil votantes.
O diretor Michael Curtiz vinha de uma carreira mediana no cinema. Com bons trabalhos como A Canção da Vitória, Robin Hood e Santa Fé, mas sem nenhuma característica autoral capaz de imaginar realizando a obra cultuada que se tornaria “Casablanca”.
O elenco sim, era espetacular. Ingrid Bergman, Humphrey Bogart, Claude Rains, Paul Henreid e Peter Lorre dispensam apresentações. O entrosamento que se deu entre eles no filme foi essencial para ajudar na reputação desta película que, cada vez que é assistida, mais prazer e descoberta oferece ao espectador.
Ingrid Bergman , aqui com 27 anos, já era uma atriz com alguma experiência, em cerca de uma duzia de películas realizadas na Suécia. De Casablanca em diante sua carreira tomou um impulso extraordinário em papéis em filmes importantes como Por quem os sinos dobram, À meia luz, Spellbound, Notorious, Joanna D`Arc e muitos outros. Depois brilhou sob as lentes de Rosselini, com quem também dividiu a cama por muitos anos.
Humphrey Bogart já tinha uma carreira mais consagrada. Tinha 53 anos e era o ator fetiche de John Huston com atuações no seu estilo inconfundível em maravilhas como O Falcão Maltês e O Tesouro de Sierra Madre.

Ninguém em Casablanca é exatamente vilão, nem exatamente herói. São pessoas amedrontadas com a guerra, pessoas que convivem com perseguições e arbitrariedades, enfim gente com a enorme angustia daqueles tempos sinistros patrocinados pela guerra.
O capitão Renault é um policial francês corrupto, embora facilite a vida de quem quer um salvo-conduto para ir para Lisboa e de lá para a America. Claude Rains vive tão bem este personagem contraditório, que chega a angariar simpatia. Paul Henreid faz Victor Lazlo, marido de Ilza Lund (Bergman), um homem de princípios e ideologia sólida. Rick, ao contrario, abandonou um passado mais glorioso para centrar esforços na sua própria sobrevivência, sobretudo depois da frustração amorosa. Neste clima um tanto estéril e tenso para que aconteçam histórias de amor, renasce o envolvimento entre Rick e Ilsa.

Eles se conheceram em Paris, mas a guerra, as dificuldades e a descoberta de que seu marido não havia morrido, como imaginava, separou a dupla romântica. Rick tem um bar em Casablanca e ali posa de meio gerente, meio gangster, meio frágil, como só Bogart pode fazer tão bem. E é neste bar que Ingrid entra e pede ao pianista, Sam, que toque “As Times Goes By”. Ela quer sonhar com um amor distante ouvindo a trilha sonora de sua paixão quando Bogart aparece para repreender o pianista para que ele não tocasse mais aquela música que tantas lembranças trazia. Foi nesse momento que Rick vê o sonho se materializar. Só acontece no cinema. Mas o cinema dá banho na vida real.
Comece a prestar atenção na fotografia em preto e branco. Uma das vantagens das boas fotografias P&B é que elas resistem mais ao tempo, envelhecem menos. O filme tem foco, enquadramento, diálogos e situações que disfarçam muito a sua idade. Seus quase 70 anos não foram cruéis com a obra.
Seria válido dizer que Casablanca é o melhor filme simples já feito. Não tem nada de mais, e tem tudo de mais. Tudo de mais mesmo.

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