Um bom negócio

19/08/2017

A América do Norte se notabilizou como a terra das oportunidades. O Brasil vai ficar conhecido como a terra dos bons negócios.

Magalhães Pinto já sabia disso quando aprovou a campanha do seu antigo Banco Nacional, “o banco do tamanho do seu negócio” e, não por acaso, o banco nacional.

Mas é graças à internet, ao Ministério Público, à Polícia Federal e a uns poucos juízes de peito que nós estamos começando a saber o verdadeiro tamanho desse “negócio”.

Nada escapa à sanha negocial do brasileiro.

Se na América os empreendedores enxergam em cada esquina, em cada espaço desocupado, em cada ausência do estado, uma oportunidade para empreender, nós somos muito mais eficientes: construimos nossas oportunidades desocupando os espaços, minando a capacidade de resposta do estado, montando nossas barracas de fraudes em todas as esquinas.

Nada mais nos surpreende: o vereador que montou sua quitanda para desviar mortos do IML; o ex-deputado que intermediava os esquemas da máfia dos transportes; o ex-governador que inventou a taxa de oxigênio; o médico que roubava nos medicamentos; o juiz que ganha como vice-rei; o presidente que recebe o conhecido vigarista pela porta dos fundos; o ministro que manda soltar o compadre…

Numa sucessão interminável de negócios escandalosos, vergonhosos e tenebrosos, e outros disfarçados de legítimos, agora fomos atropelados por mais um “negocinho da China” - a bolsa candidato. A lógica irretorquível da esperteza.

― Como assim? Não pode mais fazer negócios escusos com fornecedores do Estado? Vamos criar a taxa democracia!

Assim mesmo, sem pudor, sem piedade.

Isso nem é recente; vem de longe. Na verdade veio de Portugal, com Cabral e Caminha, nos primeiros dias do século XVI. Praticamente não há setor isento à tramóia em Pindorama.

E para não perder sua atenção listando cada safadeza que provavelmente te roubou sonhos, esperança e trabalho, vou concluir com essa historinha: depois de varrer os sebos da cidade, na esperança de sair lendo um livro de que preciso, descobri que, na contramão do universo, os livros impressos, mesmo surrados, continuam sendo um ótimo negócio no Brasil. 

Mesmo depois que um lobby das editoras, ali pelos idos de 2004, em conluio com o Senador José Sarney, conseguiu fazer o governo Lula isentar a tal “cadeia produtiva do livro” de impostos, prometendo subsidiar o incentivo à leitura (que nunca foi feito), não há livro barato no Brasil.

Aquele comércio de livros que tomou conta de algumas calçadas é apenas uma ponta desse negócio. Pois bem, sem encontrar nos sebos os autores que me interessavam, resolvi buscá-los na internet.

Apenas para tomar um choque de realidade. Acreditem: um livro de sociologia da educação, desses que todo professor (o Brasil tem milhões deles) deveria ler antes de pisar numa sala de aula, tem o preço variando entre 190 e 390 reais. Um terço do salário mínimo por um livro usado. Qual o professor que pode ter esse livro?

E antes que alguém reclame, esse dinheiro não vai nem para o autor, nem paga impostos.

O mesmo livro, na Amazon brasileira, custa 350 reais, enquanto sua versão original em inglês, com capa dura, e já com o frete incluído, custa 25 dólares na mesma Amazon original.

Das duas uma: ou não interessa que os professores leiam seu conteúdo, ou você jamais vai poder comprá-lo pelo preço justo, porque o maior cliente de livros do planeta, o governo brasileiro, precisa pagar esse valor para alguém fazer um bom negócio.

Em outras palavras, enquanto Educação, Saúde, Segurança e Previdência forem tratados como negócio no Brasil, cabe a você entrar com o lombo, e não espernear.

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