Até que a morte nos separe

Quem irá sobreviver a essa barafunda política é um enigma para estudiosos do nosso psicosociodrama eleitoral, mas para quem tem certeza da morte eis uma boa notícia: voltou à televisão a promoção imperdível de 50% de desconto no sepultamento de clientes que vierem a passar desta para melhor em seis meses.
Mas, atenção, além de improrrogável, a promoção é intransferível: só valerá mesmo para os que morrerem antes do decurso do prazo; depois disso, morre o desconto.
Deve ser parte do esforço para a salvação da previdência social, carcomida por benefícios irregulares, assaltada por fraudes jorginianas e ferida pela sonegação dos muito vivos. Agora que o grave problema previdenciário reduziu-se a uma questão demográfica – e não de seguridade social – a mesma televisão traz uma notícia ameaçadora para o sistema de proteção dos aposentados: a de que poderemos viver não 80, 90 ou 100 anos, mas 120 anos.
O geriatra britânico De Grey vai ainda mais longe: garante que o homem poderá viver até mil anos. Está lá no site Sens (sigla em inglês para Estratégias para a Senescência Negligível Engenheirada): no futuro, as biotecnologias de rejuvenescimento cuidarão de restaurar permanentemente nossas células e biomoléculas essenciais.
Será um cansativo tédio assistir repetidas vezes ao embate de renans e jucás, ver o presidente norte-americano declarar guerra pelo twitter, trabalhar como burro de carga por 900 anos, ao invés de apenas 30, e ainda, como um condenado à velhice, suportar as sogras todo esse tempo. Será uma chatice interminável rever os colegas de escola, nas festas de formatura, apenas para conferir quem andará mais acabado.
Viver mil anos, quem quererá? Será o azar dos filósofos e dos poetas da vida breve. Molière já dizia preferir viver dois dias na terra que mil anos na história; em compensação, veremos a supremacia dos que buscam o sentido da vida em milênios.
Poderemos ver a invenção da charrua elétrica, acompanhar a missão do homem à Lua e vê-lo voltar para destruir o planeta Terra com as doenças e as guerras. Poderemos testemunhar os sete séculos do triunfo romano e ainda ter tempo de assistir ao declínio do império. Conhecer pessoas com nomes medievais como Clotário e Pepino. Velejar até o redescobrimento do Brasil, acompanhar a via sacra do seu bate cabeças entre saúvas e jabuticabas e ver deus – até Ele – jogar a toalha e desistir de ser brasileiro, com pedido de desculpas a Cabral, o português.
Ao fim de mil anos, nos despediremos, com Fernando Pessoa: o tédio de viver sempre deve ser imenso. Talvez o inferno seja isso.

Please reload