Meu medo

Na saída do restaurante, meu amigo fala sem exclamações:

- Só espero que um dia não me arrependa por não ter roubado.

Ele provavelmente imagina que meu sorriso em resposta signifique que compartilho da sua contida revolta com o que acontece hoje no país. É claro que não fico indiferente ao saber os novos valores que nossos velhos conhecidos colocaram na meia, na cueca, na mochila e até em lugares mais bem refrigerados como uma conta na Suíça. Ainda que não consiga imaginar como notícias deste tipo podem causar ânsias de vômito num procurador-geral ... É como se um médico que trabalha numa emergência ficasse em choque ao ver o sangue jorrar de um baleado por fuzil. 

O que não posso confessar ao meu amigo, enquanto caminhamos pelo Largo da Carioca, é o medo de ver pessoas públicas confundirem um comportamento mal-humorado, agressivo e rancoroso com demonstração de seriedade e honestidade – pensei em escrever homens públicos, mas poderiam me acusar de discriminação e não estão aliviando nem o Chico Buarque.

Acham que, para ser firme, é preciso gritar. Se você tem razão, danem-se os outros. Podem xingar, cuspir, empurrar, chamar pra porrada. Depois, faz pose de guerrilheiro moral para justificar covardias ou simplesmente falta de educação. 

Ninguém sabe pedir desculpas. Ninguém usa a ironia para driblar um conflito.

Neste ambiente que oscila entre a chatice de alguns – que também a confundem com seriedade – e a histeria de outros, vamos acabar nos deixando enfeitiçar pelo simpático vilão, uma espécie de malvado favorito que nos conte uma boa história e nos faça sonhar com dias melhores.  Aquele em que acreditaremos mesmo que a consciência nos diga que estamos errados. 

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