E a leitura?


Nunca estivemos tão desgovernados.

E o fato de que as entranhas do desgoverno vêm à tona com tanta profusão - obra e graça da internet, e de mais ninguém - só piora as coisas, porque não damos mais conta dos detalhes.

Duas vítimas desses desgovernos de coalizão (eufemismo que poderia ser substituído por medíocres com votos) tem sido a leitura e a escrita. Governantes se calam, o filão da corrupção mobiliza a imprensa e, assim, à luz do dia, o país resolveu o seu compromisso com o atraso: fato é que o Analfabetismo Funcional perdeu a importância. Deixou a ordem do dia.

Diante de índices insistentes* que revelam a incapacidade de utilização da leitura e da escrita por expressiva parte da população (67%), as autoridades encarregadas - leiam-se Ministérios da Educação e da Cultura - decidiram, como se diz, “abafar o caso”.

Ora se relativizam os indicadores, ora se critica a metodologia das pesquisas, e assim se dá a questão por resolvida. Afinal, nunca se escreveu tanto em nossa história, quanto agora, nas redes sociais.

O problema é que a linguagem da internet é ótima para as redes sociais, mas não serve para a ciência. E, a menos que passemos por uma outra reconversão produtiva na próxima década, a ciência e a tecnologia são fundamentais para o desenvolvimento dos povos e das nações. Não só por questões econômicas, mas de sobrevivência da espécie.

Exemplos estão por aí no cotidiano: alimentos desperdiçados no campo; acidentes de trabalho na indústria; contaminações cruzadas nos hospitais; serviços se transformando em foco de demandas judiciais; doenças contagiosas se espalhando; manuseio errado de venenos e defensivos agrícolas. Uma lista interminável de consequências que, somadas à precariedade de recursos, só aumentam o fosso que separa ricos e pobres.

Fechando o círculo vicioso, como a cobra que se alimenta do próprio rabo, os poucos instrumentos desenvolvidos pela humanidade para diminuir as desigualdades e a dominação social - no caso, a educação e a democracia - estão visivelmente incapacitados no caso brasileiro. E o mal que abate a educação e a democracia parece que se alimenta desses resultados catastróficos de compreensão de leitura.

A educação deveria preparar as crianças para a vida em sociedade - cujos pressupostos básicos são o sustento, a igualdade e o voto. No entanto, produz - em massa, e nos mais variados níveis -, analfabetos funcionais. Pessoas que extraem pouco dos textos, ou sequer se interessam por eles.

Estão aí os resultados: legisladores ineptos e governantes idem. Com suas pencas de assessores e mutretas, todos refletindo a contaminação do voto, o bem mais precioso da democracia. Vota-se, hoje, nos famosos; não naqueles que poderiam cuidar dos interesses coletivos e administrar o Estado. É como se um condomínio escolhesse o síndico pelo rastro de perfume que um condômino deixa no elevador.

Em plena era da informação o Brasil está produzindo pessoas com reduzida capacidade de uso da língua. Os reflexos são tantos (e tão variados), que já nem os associamos entre si. Seja no desemprego, que está longe de ser conjuntural, seja no aumento da criminalidade. No predomínio de produtos agrícolas na nossa pauta de exportações; no encolhimento de nossos jornais e revistas; no fechamento de editoras e livrarias. Estamos nos tornando uma sociedade não leitora para manter os privilégios de muito poucos.

E como essa é a era do espetáculo, estamos nos condenando, a todos, a uma programação de baixa qualidade: bizarra. Ou grotesca, como dizia Muniz Sodré. Como o “justiçamento” promovido pela Lava Jato, os diálogos de nossos políticos e as discussões primárias das redes sociais.

Não por acaso, as principais atrações da Bienal do Livro são os YouTubers, os Gamers e os autores independentes.


(*) Desde 2000, por exemplo, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE realiza a cada dois anos o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), na qual o Brasil ocupa sistematicamente os últimos lugares.

#leitura #analfabetismo #políticasdeleitura