A experiência literária promovida por feiras e bienais

O jovem leitor na contemporaneidade está longe de possuir uma relação limitada com seus livros. Vive na era em que as tecnologias lhe permitem ler pelo celular, usar a internet para a busca de informações adicionais, bem como interagir em grupos de discussão, canais de vídeos ou nas redes sociais específicas para devoradores de variados gêneros. Não param, assim, de surgir novas formas de consumir literatura, de se relacionar dentro do universo dos livros e quadrinhos. Outras destas maneiras são as bienais e feiras literárias, que oferecem mais do que compra e venda.
Promovem encontros, atividades culturais, debates, lançamentos. Tudo com grande apelo midiático, um genuíno espetáculo literário que proporciona o consumo de experiência. Este se refere à vivência de sensações proporcionada ao indivíduo, por exemplo, em grandes eventos. Segundo pesquisa feita em 2014 pela Eventbrite (plataforma de gerenciamento de eventos) nos Estados Unidos, 69% dos jovens da Geração Y, aqueles nascidos entre os anos 80 e meados dos 90, creem que participar de eventos ao vivo os deixa mais ligados a pessoas que compõem uma comunidade.
Realmente, conectar-se a outros leitores e autores é um dos pressupostos das feiras literárias. Quem concorda é a blogueira Carla Cássia, de 22 anos, estudante de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que compareceu à 18ª Bienal Internacional do Livro Rio. Para ela, o interesse do público é bem variado, já que alguns vão para conhecer autores e outros a fim de encontrar preços mais baixos. “Mas não é uma feira de descontos. As bienais são para encontrar novos escritores, se relacionar com quem também curte ler, além de conhecer os autores de seus livros pessoalmente”.
Esta característica é um fenômeno recente. Seu atributo original como evento de negócios vem dando espaço para uma percepção mais emocional das feiras. A de que são um ambiente de estímulos sensoriais provocados pelo design de livros e estandes, pelas músicas de fundo, vozes ecoando por todos os salões, peso das sacolas repletas de histórias adquiridas, pelo esbarrão em outro visitante fascinado por aquele universo com cheiro viciante de livro novo. Essa magia é que é vendida por meio do marketing para os leitores, e comprada com gosto.
Inclusive os momentos e sensações são compartilhados na internet pelo público. O impacto nas redes sociais foi destaque nos dados finais da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que cresceu em número de seguidores no Facebook e no Instagram. A média de alcance por postagem foi de 4 mil pessoas. A hashtag definida para este ano, Flip2017 (#Flip2017), teve mais de 6 mil menções durante o evento, entre os dias 26 e 30 de julho. Esses números representam um crescimento de 25% em relação ao ano anterior, 2016.
O que também se expandiu nas feiras foi o espaço para os games e a realidade virtual, destaques na Bienal do Livro deste ano. A narrativa que essas tecnologias trazem aos seus usuários se aproxima mais da literatura do que o senso comum sabe. E analisando sob a lógica do consumo de experiência, os games e a realidade virtual, além de dialogarem com a ficção presente na literatura, proporcionam a imersão em um ambiente que copia o real. Um estímulo de sentidos que projeta na mente do usuário um mundo que antes, na literatura convencional, ficaria a cargo da imaginação construir.
Tais novidades tecnológicas em evidência nos megaeventos literários não deixam esquecido na estante o incentivo à formação de novos leitores. O estudante de Publicidade e Propaganda da Universidade Veiga de Almeida (UVA), José David Barbosa, de 20 anos, acredita neste papel das feiras e bienais, sem deixar de citar os outros aspectos delas. “Você pode conhecer autores, participar de palestras ou de uma sessão de autógrafos, comprar livros que não acharia normalmente nas lojas. Porém, sem o estímulo à leitura, a experiência no evento não seria a mesma”.
Os efeitos podem ser em curto, médio ou longo prazo. Cada um vai ter seu momento de buscar o gênero que mais o despertou interesse. Talvez, simplesmente, seja o primeiro livro da vida. Entretanto, o acesso a um determinado exemplar, as condições financeiras, os hábitos e, sobretudo, os desafios do indivíduo contemporâneo são barreiras a se quebrar. Assim, não dá para desconsiderar a vivência de sensações proporcionadas por essas festas culturais voltadas para a literatura. Ou seja, os efeitos são simultâneos.
Dessa forma reflete Vagner Amaro, Mestre em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), da editora Malê. Na pesquisa realizada por ele foi constatado que as pessoas que se sentem satisfeitas com a participação nas atividades de incentivo à leitura não necessariamente se percebem estimuladas, a partir desses momentos, a ler. “Gosto de pensar que há um interesse no público, mesmo que em um nível inconsciente, de querer viver coletivamente uma experiência em torno do livro nos eventos que festejam a literatura”, revela o editor.
De fato, quem se interessa minimamente por literatura é atraído, graças aos meios de comunicação que propagam o evento, para esses momentos de imersão em um universo de entretenimento. Fazer parte disso já representa uma relação com os livros. Tem muita atividade sendo oferecida nesses locais. Não é o momento para ler 300 páginas, mas para sentir a energia que toma o ambiente e interagir. De tentar reproduzir isto em fotos e vídeos “guardados” nas redes sociais como recordação. Registros que levam o leitor ou espectador à experiência vivenciada e que poderão dar novos amantes aos livros.

 

foto: Jefferson Alves, AgênciaUVA

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