O cinema nos Tribunais

 

 

Recentemente tive o prazer de rever A mocidade de Lincoln (The young Mr. Lincoln) do mestre John Ford, um filme de 1939 com Henry Fonda no papel-título, que conta a história do jovem advogado, antes de se envolver na vida política que o levaria à presidência dos Estados Unidos. O jovem Lincoln consegue, de forma brilhante, reverter no tribunal bastante informal do século XVIII no remoto Illinois, a injustiça que seria cometida contra dois inocentes.
Elegante, sóbrio e irreverente, bem ao estilo de Ford de peculiarizar os personagens, o filme abriu-me o apetite para rever filmes de tribunais, e em conversa com os amigos iniciamos uma seleção.

Testemunha de acusação (Witness for the prosecution) é um belo exemplo de película que leva a platéia ao êxtase absoluto. Baseado num livro homônimo de Agatha Christie, o que já nos garante surpresas na trama, o filme torna-se um clássico magnífico de filmes de julgamento. O caso é de um assassinato em que todas as evidências recaem sobre o réu, Leonard Vole, num trabalho feito por Tyrone Power que, acredito ser uma de suas melhores atuações no cinema. O advogado é um velho irônico que não dispensa seu uísque, apesar da proibição médica, e é vivido pelo estupendo Charles Laughton numa atuação memorável. Para completar o quadro de talentos temos Marlene Dietrich no papel de mulher de Vole e a direção sempre perfeita de Billy Wilder. É o tipo do filme que deve ser visto varias vezes, tanto por ser muito agradável quanto o de ser capaz de sempre trazer algo novo, um tanto quanto sutil, que possa ter passado despercebido.
O sol é para todos (To kill a Mockinbird) tem o Alabama pós-depressão como cenário, onde havia um fortíssimo ódio racial. Um negro é acusado de estuprar uma jovem branca. Numa sociedade, como era o Alabama nos anos 30, que não tolerava o negro inocente e pacífico, o que dizer de um estuprador?
Convencido da inocência do negro, o advogado Atticus, vivido por Gregory Peck, aceita sofrer todo o tipo de restrições e ameaças, mas jamais desiste de toda a construção que tinha feito para defender o réu. Não há honorários nem outro tipo de interesse que não seja o de fazer justiça.
Uma bela fotografia preto e branco, uma direção inspirada de Robert Mulligan, que tem aqui seu trabalho mais importante, e um Oscar merecido para Gregory Peck.
Outro filme imperdível é o que retrata o julgamento de alguns nazistas que cometeram crimes contra a humanidade no excelente Julgamento em Nuremberg (Judgement at Nuremberg) do experiente Stanley Kramer. Aqui um dos destaques é a brilhante atuação dos dois advogados. Na defesa dos acusados nazistas, Hans Rolfe, um homem inteligente e determinado (que valeu um Oscar para a magistral interpretação do alemão Maximiliam Schell) e na acusação o Coronel Tad Lawson (vivido por Richard Widmark). O filme tem o mérito de entremear cenas de tribunal com as conversas informais que o juiz Dan Haywood (Spencer Tracy) tem com os empregados designados a servir-lhe durante sua permanência em Nuremberg. Seu objetivo era entender um pouco mais como viviam aquelas pessoas durante o regime de Hitler. Será que elas sabiam de tudo, das atrocidades, dos campos de extermínio?
Ainda no Tribunal temos depoimentos pungentes de vítimas do sistema, mas o clímax vem com o um espetacular desabafo de um dos réus, Ernst Janning, um juiz que trocou suas convicções de justiça pela obediência obstinada ao terror do regime. E motivado pela veemencia da defesa de Rolfe, acuando as testemunhas, Janning ergue-se e em voz alta exclama: - Herr Rolfe, vamos fazer isto de novo?
Um filme excepcional que nos faz refletir um pouco sobre uma nota macabra em nossa história recente e que conta com um elenco extraordinário que, além dos citados, conta com participação de talentos como Judy Garland, Marlene Dietrich e Montgomery Clift, além de um Ernst Janning interpretado com uma dignidade exemplar por Burt Lancaster.
Kramer versus Kramer é um filme que joga pesado no sentimentalismo por envolver uma criança que é disputada pelos pais no Tribunal. A Academia não resiste a temáticas como esta e não vacilou em premiar o filme com 5 Oscars, inclusive o de melhor filme de 1979. Um bom filme, produzido para ser sucesso de público, que garante lágrimas e tem no elenco Dustin Hoffman e Meryl Streep é uma fórmula difícil de não dar
certo.
Há boas cenas de tribunal entremeadas com a difícil rotina de um executivo americano de conciliar a vida de pai com a vida profissional, o que vem a ser o mais forte argumento do advogado da mãe, Mrs.Kramer. Hoffman levou também o Oscar de melhor ator e Meryl Streep o de melhor atriz coadjuvante.
Doze homens e uma sentença, do veterano Sidney Lumet, nos coloca no conflito de uma sala de júri. Inicialmente apenas um dos jurados (Henry Fonda) questiona sobre a culpa do réu. E durante 2 horas, com apenas um set, vivemos o exercício saboroso do argumento, do conflito e do convencimento. Uma película memorável, inteligente, filmado com um estilo bastante criativo, onde as tomadas vão ficando mais abertas e menos claustrofóbicas à medida que os preconceitos vão sendo vencidos e as sutilezas vão aparecendo.
Francis Ford Coppola também esteve mexendo com advogados e julgamentos no mediano O homem que fazia chover (The Rainmaker). É a história de um advogado idealista do Tennessee, Rudy Baylor (Matt Damon) numa luta desigual, travada com uma raposa veterana, por uma causa que envolve seguros de saúde. O filme tem ritmo e mantém atenção o tempo todo. Falta-lhe um pouco mais de profundidade na causa em questão, em benefício de frisar o homem em busca de sua superação. Vale a pena assisti-lo.
Filadélfia (Philadelphia),1993, é um exemplo magnífico de filme que lida com o direito. Aqui você tem o preconceito e o falso moralismo sobrepujando-se à ética.
Quando o jovem e brilhante advogado Andrew Becket (Tom Hanks) aparece com sarcomas sugestivos de que é portador do HIV e de práticas homossexuais, o grande escritório em que trabalha monta uma conspiração para justificar a sua demissão.

A luta é grande para achar um colega que tope levar o seu caso aos tribunais.
Depois de varias tentativas, Hanks consegue convencer Joe Miller (Denzel Washington) a lutar por seus direitos e enfrentar as raposas do mega escritório comandado pelo espertíssimo Charles Weeler (vivido com o talento costumeiro por Jason Robards).
No filme, o diretor Jonathan Demme reafirma o profissionalismo já exibido no excelente O silêncio dos Inocentes e Tom Hanks tem o melhor desempenho de sua carreira.

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