Uma cidade e suas transformações: de Duguay Trouin aos Jogos Olímpicos

04/10/2017

Aparentemente livre dos grandes eventos naturais, o Rio de Janeiro não teve a mesma sorte com eventos de outra natureza: algumas ações humanas tiveram trágico impacto sobre a Cidade e seus habitantes.

Deixando de fora a chegada de Estácio de Sá, em 1565, e o sequestro da cidade pelo francês Duguay Trouin, em 1711, que devem ter sido brutais para os habitantes da época, os últimos dois séculos foram marcados por gigantescas intervenções na cidade, a começar pela chegada da Família Real.

Sem abrigo para milhares de nobres e fidalgos desterrados, a Coroa requisitou as casas que quis, criando o primeiro programa de habitação impopular do Brasil, o “Ponha-se na Rua”.

Foi com resignação e essa espécie de humor mórbido (depois explicado por Sérgio Buarque de Holanda como uma “cordialidade”) que os cariocas interpretaram a marca PR, de Príncipe Regente, com que o Império Ultramarino Português marcava os imóveis expropriados para os “Pares do Reino”.

Cem anos depois, Pereira Passos fez a primeira cirurgia geral na cidade: a intervenção teve o sugestivo nome de “Bota-Abaixo”, mas construiu grandes avenidas, promoveu o saneamento e deu um feitio moderno à Capital da República. Construiu as avenidas Beira Mar e Rio Branco, o Theatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes etc.

A Exposição Internacional do Centenário da Independência, em 1922, também repaginou a Praça XV e imediações. E cravou suas transformações na cidade com os prédios da Academia Brasileira de Letras, do antigo Museu de Imagem e do Som, e a Estação das Barcas. Foi a primeira vez que o Rio foi iluminado por energia elétrica e visto à noite, do outro lado da baía.

Getúlio Vargas, nos anos 40, deixou sua marca na larga avenida que mandou construir durante o Estado Novo. Mais de mil residências foram demolidas para dar lugar à via que leva seu nome, ligando o Cais Pharoux, na Praça XV, à Praça da Bandeira.

Depois disso Carlos Lacerda e Negrão de Lima, nos anos sessenta, fizeram as duas últimas grandes intervenções do século XX: os aterros do Flamengo, a duplicação da Avenida Atlântica, vários túneis e a maior parte dos viadutos da cidade são marcas de suas administrações.

As obras de Cesar Maia, incluídas a Vila do Pan, o Engenhão, a Cidade da Música, a Linha Amarela e o Projeto Rio Cidade causaram poucos transtornos, em comparação aos seus antecessores que citamos acima, e quase não tiveram impacto, se comparadas às obras de seu sucessor (e antigo aliado), o "nervosinho" Eduardo Paes.

Sob o comando do PMDB fluminense e dos governos petistas de Lula e Dilma, a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro passou uma década transformada num enorme canteiro de obras. As intervenções eram ambiciosas e coerentes com o ritmo de Brasil Grande que predominou enquanto brotava óleo no fundo do mar, antes e depois do pré-sal.

Lendo-se agora, um ano depois dos eventos, o documento “Cadernos de Políticas Públicas do Rio de Janeiro - Rio 2016 - Jogos Olímpicos e Legado”, publicado pela prefeitura antes do evento, é difícil distinguir o que foi obra de planejamento e o que foi executado com outro tipo análise, interesses e objetivos. Talvez nem o tempo dê conta de explicar.

Algumas coisas saltam aos olhos.

As mais importantes, quem sabe, sejam os dados e argumentos utilizados para justificar a empreitada. Como, por exemplo, a estimativa de passageiros da Linha 4 do Metrô: os estudos de viabilidade previram o transporte de mais 300 mil passageiros por dia. 

O Metrô fez transporte grátis no começo desse ano, para usuários da linha 4, porque não tinha atingido, ainda, a metade desse número. O consórcio de empresas que opera os ônibus municipais reclama permanentemente de prejuízos, a ponto de não cumprir as ordens judiciais para refrigerar a frota da cidade, a mais quente da Região Sudeste.

Talvez por isso a estação Gávea, do Metrô, tenha sido adiada e se transformado em duas crateras literalmente "estacionadas" no antigo parqueamento da PUC.

Talvez por isso, ainda, grande parte dos equipamentos o Metrô vivam em “manutenção” permanente, ou em regime de economia, funcionando precariamente como as estações que fecham as portas à noite, ou durante os finais de semana.

Pode ser que isso justifique o fato de que a Concessionária do Porto Novo esteja revendo seus contratos com a Prefeitura, e os túneis que substituíram a Perimetral estejam prestes a ter sua manutenção transferida para a Comlurb.

Difícil responder.

Principalmente quando se sabe que os empresários por trás desses grupos econômicos (Metrô, Porto Novo e Fetranspor) estão submersos em processos por crimes de corrupção, já com dezenas de anos de condenação no prontuário de cada um.

Difícil dizer o que é causa e o que é consequência diante da gigantesca crise econômica em que se transformou o legado de Sérgio Cabral. Não por acaso, medalhista nas modalidades dinheiro desviado, número de processos e tamanho de penas aplicadas. Não por acaso, recordista também em muitas outras categorias impublicáveis.

Não deixa de ser significativo que ele e grande parte dos condutores desse processo estejam às voltas com a Justiça.

Pior ainda é a situação dos esportes de alto rendimento, que desapareceram do noticiário internacional, e das antigas demandas ambientais da cidade, como a despoluição da Baía de Guanabara e das Lagoas de Jacarepaguá, que ficaram para uma próxima oportunidade, ainda dentro deste milênio.

Na linguagem esportiva, seria um golpe baixo falar agora nas Vigas da Perimetral.

Por enquanto a Rio 2016 é objeto de três investigações judiciais: uma internacional, originária da França, que apura corrupção na escolha da Cidade pelo Comitê Olímpico Internacional. Envolve diretamente o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Arthur Nuzman, cujo elo de ligação com o ex-executivo estadual é um seu xará, escalado diretamente da nobreza medieval européia: responde pela alcunha de Rei Arthur.

A segunda é patrocinada pelo Ministério Público.

Desde 2013 o MPF vem exigindo desses executivos públicos a apresentação de um planejamento percuciente para o aproveitamento dos investimentos dos recursos públicos injetados nos Jogos da Rio 2016 - popularmente chamado de “Legado Olímpico”. Sem qualquer resposta, o MPF ajuizou uma Ação Civil Pública, com efeitos de Liminar em 2013 (ou seja, imediatos e suspensivos), e até hoje, a despeito de acórdãos editados pelo TCU, se debate com os meandros da Lei.

Nem a sentença de multa diária de 10 mil reais por atraso foi capaz de acelerar um ato que, por lógica e por Lei, deveria preceder a realização dos aportes financeiros. Em outras palavras, nem deveriam ter ocorrido os gastos.

A terceira investigação já se transformou em inquérito, também patrocinado pelo Ministério Público Federal, mas de 2016, e que, pelos atos publicados na internet em 30 de maio último, já possui mais de quatro mil páginas. Pode-se dizer que, por ora, também tramita impunemente.

Não é pouco para um evento concluído no final de 2016.

Mas não é muito para o cenário em que vivemos, de basta à impunidade, de devassa total de pecadilhos e grandes mal-feitos. Devassa patrocinada por acólitos da informação - os jornalistas deste milênio -, postos diante da inacreditável oportunidade gerada pela internet, que a tudo escancara, de modo profano.

Não fosse o PMDB donatário político do Estado do Rio - partido ao qual pertencem Eduardo Paes, Pezão, Michel Temer, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral & Família e Jorge Picciani & Família - o assunto teria contaminado os legislativos nas três esferas da União, desde o Palácio Pedro Ernesto, na Cinelândia, onde os Edis Municipais se especializaram na distribuição de medalhas, até à Esplanada dos Ministérios, em Brasília, onde a Reforma Política e a defesa do Incontestável Temer dominam o cenário.

Sem falar da Assembléia Legislativa Estadual, onde o ex governador se graduou em política e conheceu a sua com-muita-sorte Adriana Anselmo, então procuradora nomeada da casa.

Infelizmente, o único brasileiro capaz de sintetizar, traduzir e dar significado a essa história recente da República (também ele xará da personagem) foi Sérgio Porto, o inesquecível Stanislau Ponte Preta, autor do Festival de Besteiras que Assola o País (FEBEAPÁ), e do incorretíssimo Samba do Crioulo Doido.

Com mas de 1.400 palavras e esse tema espinhoso, é claro que esse texto jamais se tornará viral na internet. Não tem futuro no Facebook nem abalará a opinião de quem quer que seja. Duvide-se, mesmo, que algum leitor chegue a esse parágrafo, quanto mais que leiam todo o conteúdo que pretendemos publicar, abordando os custos, os equipamentos atléticos, ditos Centros de Treinamento, as obras de infraestrutura, os usos e finalidades, e as implicações jurídicas do assim chamado “Legado Olímpico”.

Paciência: cumprimos o nosso dever de não calar.

Pretensiosos, nem queremos mais entender. Não há explicação que dê conta. Mas queremos ajudar a exorcizar santos milagreiros, salvadores da pátria e outros quadrilheiros. Essa é a função de todos nós, no Diário da Província, comprometidos com a lógica e a retórica do Papa da Comunicação dos Trópicos, o Venerável Abelardo Barbosa, conhecido como Chacrinha: nós não viemos para explicar…

 

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