O Dia do Perdão

 

Meus inúmeros amigos judeus que me perdoem - e tenho certeza de que o farão pelo menos em determinado dia do ano que vem -, mas Lula apropriou-se do dia do perdão de 2017. Em caravana pelo deserto de plateias locais, mas popular nas grandes redações, figura acostumada à verba e ao verbo, a estrela guia roubou a cena, em flagrante apropriação indébita da narrativa distribuída à fiel militância, ora desarvorada.

Dado a rompantes divinos, o líder religioso viu-se descolar até mesmo da própria vanguarda apostólica, atônita. Já o rebanho, sem saber que refrão repetir, que palavras de ordem gritar, rouca de fora Temer, mas inibida de um salve Renan, limita-se a adorar o Todo Poderoso das pesquisas de recall, tomada pela fé inquebrantável que remove montanhas de processos, provas, indícios e condenações.

Aquele que segue esperando a salvação do Messias, já que o companheiro Bessias, fruto da sanha e da manha da fanha tacanha, não se revelou de grande valia por não lhe ter garantido o foro além do de São Paulo, viveria providencial epifania na via crúcis de Guarujá a Atibaia. Inócuo por não compreender Curitiba ou o juízo final do Subpremo, o generoso mártir perdoou os golpistas, que não sabem o que fazem no plano federal.

Magnânimo, o Criador ofereceu a outra face da criatura para nos salvar dos desalmados aventureiros pertencentes às tribos rivais, não monoteístas. O bem-aventurado estendeu a mão ao PMDB, cujos pecados, por uma questão de demanda atrelada ao calendário eleitoral, podem e devem ser perdoados de dois em dois anos, espécie de Yom Kipur bianual.

O golpe – gópi em sânscrito arcaico e aramaico castiço - é página virada sobre o coração valente que, paradoxalmente, sangra em divino sacrifício para estancar a sangria, praga anunciada pelo profeta Jucá.

Afinal, com os bezerros de ouro presos e desmamados da mamata de Janot, ainda não é hora de expulsar os vendilhões dos velhos templos superfaturados. É hora d’Aquele que domina o caminho das pedras até o Erário, do Iluminado enfim livre do poste sem luz, do Soberano que se diz pronto para ditar o terceiro testamento aos escribas da academia, do Santo que conhece o povo biblicamente, do Eleito para escolher seus juízes.

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