Ou isto ou aquilo ou aquilo outro

 

Nos meus tempos de curso primário, sob a suave batuta de Dona Wanda, excelente professora da ótima Escola Pública Barão de Itacurussá, lembro-me de ter lido Cecília Meireles expressar uma indecisão de menina em Ou isto ou aquilo, poema para o público infantil que contrapunha, entre outras escolhas, a brincadeira ao estudo, o doce ao dinheiro economizado, o anel à luva.

Ainda longe das aflições de Adriana, mas valendo como metáfora para os nossos dias, ou bota de salto agulha ou tornozeleira eletrônica.

Sem brincadeira, ao contrário do que ocorre na síndrome da folha em branco, quando falta assunto, os articulistas não sofrem com a diversidade, não penam com a multiplicidade em excesso, não temem a profusão de temas palpitantes. Entretanto, sem a menor dúvida, em boa matéria para estudo, hesitam diante do leque, como talvez tivesse ocorrido com a própria autora acima mencionada em um dia de frio, coerentemente dividida entre a exposição pública de uma peça espanhola ricamente trabalhada e a recomendável clausura do belo objeto no interior da bolsa.

No mosaico de notícias que se apresenta no dia de hoje, como pinçar um tópico determinado? Como escolher o conteúdo mais relevante, como destacar aquele que despertaria maior interesse dos leitores?

Antigamente, os doces não eram sempre os bárbaros, o dinheiro era contado ou pingado, o anel não era da Antonio Bernardo ou da H. Stern e nem a luva Prada ou Hermès.

Pois após ler o jornal, defronto-me com sentimento análogo ao debatido em sala de aula há 50 e poucos anos. Todavia, a inspiração derivada da lembrança tem, infelizmente, a escala bastante ampliada.

Incompreensivelmente, pela apatia generalizada ou o mero cinismo ideológico, entre a proteção ao frio exercido pela luva e a singela vaidade representada pela beleza do anel; entre a poupança e o paladar satisfeito, abrem-se infinitas possibilidades não excludentes, todas dignas de indignadas colunas.  

Recurso de Picciani & Cia. ou novo embargo de Dirceu; desaforo privilegiado ou manifestação do subpremo; ensino básico de qualidade ou reforma da previdência; materialidade criminosa da mala da pizzaria ou alvará de soltura emitido pela assembleia; punibilidade da falecida dona Marisa ou retrocesso no aborto por estupro; demissões em massa na CUT – pausa para gargalhadas - ou campanha eleitoral antecipada; saneamento básico ou universidade pública gratuita; relatório do Banco Mundial sobre gastos públicos ou jantares oficiais no Jaburu; ministro do presidente da Câmara ou das Cidades; ou isto ou aquilo.

Nesses casos, costumava apelar para um samba do crioulo doido, mas tão somente a estruturação do artigo em miscelânea portenha ou stanisláwisca, sobrenome ou pseudônimo, já pode configurar racismo, aliás outra polêmica trazida pelo Globo; melhor mudar de calçada e parágrafo.

A única coisa sobre a qual não resta a menor dúvida é a de que pagamos regiamente por todas elas. Isso, aquilo, aquilo outro e tudo mais, sempre com direito a recurso aos tribunais superiores, STJ ou STF. Não é à toa que a garotada só quer fazer Direito. Ser juiz ou advogado; desembargador ou criminalista; defensor público ou procurador do ministério público.

A nós, os honorários, os vencimentos e todos os custos do anel de rubi.

Afinal de contas, ninguém usa luva no Brasil nos dias de hoje.

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