Que falta faz Billy Wilder - Parte 1

O vienense Billy Wilder está seguramente numa posição de destaque na galeria entre os mais brilhantes cineastas de todos os tempos. Foi produtor, um incansável roteirista e diretor de 27 filmes, sendo que não há um só título medíocre em sua filmografia. A sua versatilidade em lidar com a comédia, com o drama e com o suspense o posiciona num lugar em que reina praticamente absoluto. Como se diz em futebol, brinca nas onze. Iconoclasta, ácido crítico de costumes e até, de certa forma misantropo, Wilder reúne essas marcas numa receita infalível de sucesso. Respeitado pela crítica e adorado pelo público, consegue ser aquilo que se deseja de um grande artista.
Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard) é provavelmente o melhor filme a penetrar no universo glamoroso e ao mesmo tempo destruidor da indústria do cinema. Minelli, dois anos depois, brilhou com o excelente Assim estava escrito (The Bad and the Beatiful) num trabalho exemplar igualmente metalinguístico, mas “Sunset” traz um elemento novo, cruel, onde o personagem de Glória Swanson vive num mundo à parte, ausente da realidade, vivendo um papel aprisionado no passado abrindo caminho para que um roteirista fracassado e sem escrúpulos vivido por William Holden pudesse deitar e rolar.
Pacto de sangue (Double indemnity) é uma das mais inteligentes histórias de adultério e crime do cinema, construindo um clima de tensão crescente entre os personagens de Barbara Stanwick, Fred Mc Murray e o genial Edward G Robinson. Wilder trabalhou também com o sofrimento de um campo de concentração (INFERNO 17- Stalag 17, só que desta vez o inimigo está entre os presos e a luta é encontrar e destroçar o traidor. Mais uma vez trabalhando sobre o seu desprezo pelo ser humano, Wilder destroça o caráter dos personagens em Testemunha de acusação (Witness for the Prosecution), a mais perfeita adaptação de Agatha Christie para o cinema.
Entretanto, a faceta mais podre do ser humano é alcançada em A montanha dos sete abutres (Ace in the Hole), onde um jornalista em declínio vê a chance de alavancar sua carreira atrasando o salvamento de um homem preso nos escombros de uma rocha.
Acrescente-se a essa sordidez o desprezo da mulher da vítima pelo marido, a corrupção das autoridades compradas para criar o sensacionalismo, a audiência que sobe vertiginosamente e o circo que se forma para participar do espetáculo do sofrimento.
Terminando esse artigo dedicado aos dramas de Wilder, é importante destacar Farrapo humano (The lost weekend) sobre a degradação do ser humano, vítima do alcoolismo. O filme em 1945 ganhou nas principais categorias do Oscar: filme, diretor, ator (Ray Milland) e roteiro adaptado (na parceria Wilder e Bracket).
É importante acrescentar que todos os filmes citados são relativamente fáceis de encontrar nos sites que vendem DVDs. No próximo artigo me dedicarei às comédias do velho Billy Wilder que tanta faz nos faz.

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