Insulto de Natal

 

O título parece erro que passa batido pelo corretor ortográfico do Word, uma letra ao lado da outra na imensidão à esquerda do teclado padrão.

Assim, os caracteres S e D colocam insulto no lugar de indulto, cínica indignidade cometida contra a sociedade, em vez de uma suposta magnanimidade original, baseada na nobreza de espírito.

Consta que o indulto, pelo menos no tocante à civilização ocidental, foi uma instituição típica do absolutismo francês, que não tardaria a ser copiada por Portugal. E é sempre bom lembrar que Coimbra forjaria o nosso Direito.

O primeiro caso reportado remonta ao final do século XVI, quando Paris passou a valer uma missa celebrada a mando de Henrique IV, que incluía a do galo. Não por acaso, a ave é símbolo dos dois países, e foi o peru quem morreu de véspera.

A iniciativa natalina sempre teve a intenção precípua de enaltecer a bondade de soberanos diante da crueza de seus juízes. Com a cumplicidade do alto clero, revelava-se um sopro de compreensão divina por meio de seus representantes na terra, exatamente no local afetado pela mordedura imposta pela implacável lei dos homens. Entretanto, o perdão real jamais contemplava as perigosas anistias políticas.

Alguns séculos mais tarde, porém seguindo o mesmo diapasão, o instituto seria adaptado até mesmo a algumas repúblicas e monarquias constitucionais. Tal benefício, cristão por excelência, serviria para atenuar abusos judiciais contra prisioneiros pobres e não violentos, quando não para pacificar regiões onde grassaram episodicamente os crimes ditos famélicos em períodos de guerras, terremotos, secas, furacões, pragas e inundações.

Mais tarde, em uma tentativa de racionalização das despesas públicas, o poder executivo de certos países passou a trabalhar no sentido de possibilitar que deixassem a cadeia aqueles que cometiam crimes cuja insignificância inviabilizava processos ou exorbitava o custo de manutenção dos custodiados. Na verdade, longe de qualquer espírito elevado, era a elevação de custos que contava. De resto, uma forma mais barata de se evitar que ladrões saíssem pelo ladrão.

Pois o Brasil, por meio do seu primeiro semipresidente, fará o mundo se render à generosa jabuticaba natalina, jaca que nos caiu no pé. Temer soube levar ao paroxismo cristão o homem cordial constante da obra Raízes do Brasil, onde se destaca e se enterra a mandioca enaltecida pela golpeada Dilma.

Se a eterna presidenta foi indultada politicamente por Renan e Lewandowsky, quando o natal não havia chegado sequer à propaganda da Leader Magazine, por que não reservar o indulto aos outros colegas de crimes da Lava-jato?

A isonomia, palavra mágica do funcionalismo, é sua estrela-guia, rei mago dos condenados e indiciados.  

O ato de clemência – longe de revelar a forma de demência – cl minúsculos no lugar do d, haverá de gilmar o deus petista se porventura a cana do mestre deixar de ser a popular 51. A pena há de ser reduzida a pó – oportunidade para Aécio respirar, aliviado.

Para escapar pela insignificância os 51 milhões apreendidos nas malas de Geddel, basta doar o montante ao exagerado Cabral. Já o rival Garotinho, acostumado às sucessivas greves de fome, há de zerar as suas contas sob a alegação de crimes famélicos.

Finalmente, ao tempo que peço o indulto de natal dos leitores pela narrativa construída a partir da simples verossimilhança, uma legítima fake history, fora Temer. Que não tenha sido um insulto à erudição da maioria.

#foraTemer! Fora da cadeia a partir de 2019.

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